Câmara dos EUA aprova pacote de gastos após divisão entre democratas sobre financiamento ao ICE
Ala moderada do Partido Democrata se une a republicanos para garantir recursos ao Departamento de Segurança Interna e evitar paralisação parcial do governo
A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou nesta quinta-feira um amplo pacote de gastos federais, mas a votação expôs uma divisão profunda entre os democratas, especialmente em relação ao financiamento do Departamento de Segurança Interna (DHS) e do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). Um pequeno grupo de democratas moderados se aliou aos republicanos para garantir a aprovação dos recursos ao DHS, apesar da forte resistência da maioria do partido.
A proposta de financiamento do DHS foi aprovada por 220 votos a 207, com apenas sete democratas votando a favor. O restante da bancada democrata votou contra, em protesto às operações agressivas do ICE em cidades como Minneapolis e outras regiões do país. Em votação separada, a Câmara também aprovou, com amplo apoio bipartidário, um pacote que financia outras agências federais, numa tentativa de evitar uma paralisação parcial do governo a partir de 31 de janeiro.
Em um movimento inesperado, os deputados aprovaram por unanimidade uma emenda que revoga uma lei aprovada anteriormente pelo Senado, a qual permitia que oito senadores republicanos específicos processassem o Departamento de Justiça e recebessem, no mínimo, US$ 500 mil em indenização após a coleta de seus registros telefônicos durante investigações relacionadas ao ataque de 6 de janeiro ao Capitólio. A inclusão dessa revogação no pacote cria pressão sobre o Senado, que agora precisa aceitá-la ou correr o risco de um novo shutdown.
O pacote final reúne seis projetos de lei orçamentária aprovados pela Câmara e seguirá para o Senado. Segundo líderes da Comissão de Orçamento, o texto representa a última parte dos 12 projetos necessários para manter o governo funcionando até o fim do ano fiscal, em 30 de setembro.
A votação ocorre em meio a um clima político tenso. Setores mais à esquerda do Partido Democrata defendem o corte total de recursos do ICE após a morte de Renee Good, uma cidadã americana morta a tiros por um agente da agência em Minneapolis neste mês. A liderança democrata, incluindo o líder da minoria, Hakeem Jeffries, votou contra o financiamento do DHS, alegando falta de mecanismos de controle e responsabilização do ICE.
Jeffries acusou a agência de agir de forma “fora de controle” e de usar recursos públicos para “infligir brutalidade” à população. Até mesmo Rosa DeLauro, principal negociadora democrata do pacote orçamentário e líder do partido na Comissão de Orçamento, votou contra o financiamento específico do DHS — um gesto raro para uma dirigente de sua posição.
Os democratas que votaram a favor do financiamento do DHS foram Henry Cuellar e Vicente Gonzalez (Texas), Jared Golden (Maine), Marie Gluesenkamp Perez (Washington), Don Davis (Carolina do Norte) e os nova-iorquinos Laura Gillen e Tom Suozzi. Entre os republicanos, apenas Thomas Massie, do Kentucky, votou contra.
Enquanto parte do partido defende uma postura mais dura contra o ICE, outros democratas afirmam que ainda conseguiram avanços no pacote geral, como recursos para câmeras corporais de agentes, redução de verbas para operações de deportação e diminuição do número de leitos de detenção. Ainda assim, propostas mais radicais, como projetos para abolir ou desmantelar o ICE, não têm chances de avançar no Congresso dominado por republicanos.
Fonte: NBC