Trump enfrenta crescente revolta cultural contra repressão à imigração

Críticas à política migratória do presidente se espalham por setores como negócios, esportes e entretenimento e ameaçam enfraquecer sua base política

Por Lara Barth

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

O presidente Donald Trump enfrenta uma crescente revolta cultural contra sua ofensiva migratória, que já ultrapassa os limites de militantes e adversários políticos e começa a se espalhar por diferentes áreas da sociedade americana, incluindo o mundo empresarial, o esporte e o entretenimento.

Nesta semana, o cantor Bruce Springsteen lançou uma nova música criticando os “capangas federais de Trump”. O CEO da OpenAI, Sam Altman, disse a funcionários que “o que está acontecendo com o ICE foi longe demais”, em referência ao Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. Já a empresária e ícone do estilo de vida Martha Stewart alertou que “podemos ser atacados e até mortos”.

“As coisas precisam e têm de mudar rapidamente e de forma pacífica”, escreveu Stewart para seus 2,9 milhões de seguidores no Instagram.

Pouco mais de um ano após o início de seu segundo mandato, Trump enfrenta uma reação cultural ampla que ameaça minar sua principal prioridade doméstica, o controle do Partido Republicano no Congresso e sua própria força política às vésperas das eleições de meio de mandato.

Atento a mudanças no humor da opinião pública, o presidente tentou alterar o foco do debate ao enviar o “czar da fronteira”, Tom Homan, para Minnesota, substituindo Greg Bovino, comandante da Patrulha de Fronteira que vinha sendo alvo de críticas. Ainda não está claro, porém, se a mudança terá impacto prático.

Milhares de agentes federais continuam atuando em Minnesota, onde dois cidadãos americanos foram mortos e comunidades relatam sensação de cerco em razão da repressão migratória. As operações também se expandiram para o estado do Maine.

Para o estrategista republicano Doug Heye, ainda é cedo para saber se Trump conseguirá conter o desgaste político. Segundo ele, líderes republicanos em Washington temem que a escalada da crise comprometa o controle do Congresso nas eleições deste ano.
“Está muito claro que o governo está assustado”, afirmou Heye.

Apesar disso, a base mais fiel do movimento Make America Great Again segue majoritariamente unida em apoio a Trump e à repressão migratória prometida durante a campanha. Aliados pressionam o presidente a não recuar.

“É hora de o presidente Trump intensificar ainda mais as deportações em massa”, disse Laura Loomer, aliada próxima do presidente, à Associated Press. “E, se Minnesota for um indicativo, é hora de focar em deportar o maior número possível de muçulmanos.”

Esse discurso, porém, entra em choque com um número crescente de vozes influentes da cultura americana. O apresentador Joe Rogan, que apoiou Trump na campanha, disse ter simpatia pelas críticas aos métodos dos agentes de imigração.
“Vamos mesmo virar a Gestapo? ‘Onde estão seus documentos?’ É nisso que nos tornamos?”, questionou.

No fim de semana, mais de 60 executivos de grandes empresas, incluindo Target, Best Buy e UnitedHealth, divulgaram uma carta pedindo desescalada após a morte de Alex Pretti, enfermeiro de 37 anos do Departamento de Assuntos de Veteranos, baleado durante um confronto com agentes federais.

As críticas se intensificaram ao longo da semana. O CEO da Apple, Tim Cook, enviou um memorando aos funcionários dizendo estar “com o coração partido” com os acontecimentos em Minneapolis.
“Acredito que os Estados Unidos são mais fortes quando vivem de acordo com seus ideais mais elevados, tratando todos com dignidade e respeito”, escreveu Cook.

Outros empresários usaram tom ainda mais duro. O investidor Vinod Khosla condenou nas redes sociais o que chamou de “vigilantes machões do ICE fora de controle”. O podcaster Jason Calacanis alertou que Trump corre o risco de perder apoio político se não fizer mudanças profundas na condução da política migratória.

A reação também ganhou força no setor de entretenimento. Springsteen lançou a música “The Streets of Minneapolis”, que faz referência direta à morte de Pretti. Artistas como Natalie Portman, Elijah Wood, Olivia Rodrigo e Billie Eilish também se manifestaram. O ator Mark Ruffalo classificou a morte como “assassinato a sangue-frio”.

No esporte, o técnico do Minnesota Timberwolves, Chris Finch, chamou os episódios de “inaceitáveis”, posição compartilhada pelo astro da NBA Stephen Curry. Já o jogador Guerschon Yabusele, do New York Knicks, afirmou que não poderia permanecer em silêncio diante do que chamou de “assassinatos”.

Diante da pressão, Trump passou a adotar um tom ligeiramente mais moderado. Em entrevista à Fox News, disse que o governo iria “desescalar um pouco” e fez críticas a Bovino. Ainda assim, negou que esteja recuando nas operações e ameaçou o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, por se recusar a aplicar leis federais de imigração.

Pesquisas indicam que a opinião pública já vinha se voltando contra Trump mesmo antes da morte de Pretti. Apenas 38% dos adultos aprovam a forma como ele lida com a imigração, contra 49% em março, segundo levantamento AP-NORC. O apoio entre republicanos também caiu. Uma pesquisa da Fox News mostrou ainda que 59% dos eleitores consideram o ICE “agressivo demais”.

Fonte: ABC