Fumaça de incêndios florestais pode estar ligada a dezenas de milhares de mortes por ano nos EUA, aponta estudo

Pesquisa indica que exposição crônica às partículas tóxicas da fumaça aumentou significativamente mortes por doenças respiratórias, cardiovasculares e neurológicas

Por Lara Barth

Incêndios florestais causam evacuações e estado de emergência nas Carolinas

A exposição prolongada à poluição causada pela fumaça de incêndios florestais pode estar associada a uma média de 24.100 mortes por ano nos Estados Unidos, segundo um novo estudo publicado na revista científica Science Advances.

A pesquisa analisou dados entre 2006 e 2020 e concluiu que a inalação contínua de partículas microscópicas conhecidas como PM2.5 — principal componente nocivo da fumaça — contribuiu de forma significativa para o aumento da mortalidade nos 48 estados continentais do país.

“As pessoas precisam entender que a fumaça de incêndios é extremamente perigosa e representa uma ameaça crescente à saúde humana”, afirmou Yaguang Wei, um dos autores do estudo e professor assistente de medicina ambiental na Escola de Medicina Icahn, do Mount Sinai.

Essas partículas são tão pequenas que conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea. No curto prazo, podem causar irritação nos olhos e tosse. A longo prazo, agravam problemas de saúde preexistentes e estão associadas a doenças respiratórias, cardiovasculares, neurológicas e à morte prematura.

Segundo os pesquisadores, a intensificação e a maior frequência dos incêndios florestais, impulsionadas pelas mudanças climáticas, transformaram a fumaça em um risco ambiental relevante. A expansão urbana em áreas propensas a incêndios também aumentou a exposição da população.

O estudo cruzou dados federais de mortalidade em 3.068 condados com os níveis médios anuais de exposição ao PM2.5 proveniente da fumaça. Foram analisadas diversas causas de morte, incluindo doenças circulatórias, respiratórias, neurológicas, distúrbios mentais e até tumores. Para evitar distorções, os cientistas também avaliaram mortes por quedas e acidentes de trânsito — que não apresentaram relação com a fumaça.

A maior associação entre exposição e mortes foi observada em doenças neurológicas. O impacto também variou conforme a estação do ano e o perfil da população, sendo mais forte em períodos frios, em áreas rurais e entre comunidades mais jovens.

Os pesquisadores estimaram que, a cada aumento de 0,1 micrograma por metro cúbico de PM2.5 no ar, cerca de 5.594 mortes adicionais ocorrem anualmente.

Estudos anteriores já indicavam números preocupantes. Uma pesquisa de 2024 apontou que dezenas de milhares de pessoas na Califórnia morreram prematuramente entre 2008 e 2018 devido à fumaça de incêndios. Outro levantamento estimou que os incêndios que devastaram Los Angeles em 2025 podem ter causado 440 mortes a mais do que o esperado para o período.

Especialistas alertam que retrocessos em políticas climáticas e a falta de regulação específica para o PM2.5 proveniente de incêndios agravam o problema. Atualmente, esse tipo de poluição não é diretamente regulado pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), por ser frequentemente tratado como consequência de desastres naturais.

Fonte: CBS