Rixa entre Trump e papa Leão XIV gera desgaste e ameaça apoio de católicos conservadores
Críticas à guerra no Irã e ataques ao pontífice provocam reação até entre aliados tradicionais do presidente
O embate público entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o papa Leão XIV tem provocado um desgaste político inesperado, especialmente entre católicos conservadores — grupo que historicamente tem apoiado o republicano. Especialistas e líderes religiosos ouvidos pela BBC apontam que a combinação de críticas ao pontífice e a condução da guerra contra o Irã está afastando parte dessa base.
Embora divergências entre Trump e a Igreja Católica não sejam novidade, a reação recente tem características diferentes. Isso porque críticas passaram a vir também de aliados fiéis, incomodados tanto com os ataques diretos ao papa quanto com o tom adotado pelo governo americano no conflito no Oriente Médio.
Um dos casos mais emblemáticos é o do bispo Joseph Strickland, conhecido por seu alinhamento com Trump no passado. Ele afirmou que não considera a guerra contra o Irã moralmente justificável e declarou apoio à posição do papa, que defende o fim do conflito. “Não se trata de política, mas de verdade moral”, disse.
A tensão aumentou após Trump criticar Leão XIV nas redes sociais e compartilhar uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece com traços semelhantes aos de Cristo — gesto que foi mal recebido até entre apoiadores. Para líderes católicos, ataques ao papa são vistos como ataques à própria Igreja.
Outro influente conservador, Peter Wolfgang, destacou que Trump pode perder apoio ao confrontar o pontífice. Segundo ele, muitos católicos que antes apoiavam o presidente por pautas como aborto e imigração passaram a se incomodar com sua postura em relação à guerra e à religião.
A guerra no Irã, aliás, tem gerado uma rara convergência entre católicos de diferentes correntes ideológicas nos EUA. Tanto conservadores quanto progressistas têm se alinhado à posição do Vaticano, que rejeita o conflito com base na chamada “teoria da guerra justa”, doutrina que define critérios morais para conflitos armados.
Dados do Pew Research Center mostram que o eleitorado católico nos EUA é dividido politicamente, mas vinha se aproximando do Partido Republicano nos últimos anos. Esse cenário pode ser impactado caso o desgaste com o papa se aprofunde.
No Vaticano, a leitura é de que o posicionamento do papa não é um ataque direto a Trump, mas uma defesa de princípios morais. Ainda assim, a resposta firme às falas do presidente — incluindo a classificação de algumas declarações como “inaceitáveis” — reforça o contraste entre as duas lideranças.
Analistas avaliam que, ao confrontar o papa, Trump acaba reconhecendo o peso da autoridade moral do líder religioso. Ao mesmo tempo, o episódio expõe os riscos políticos de misturar religião, guerra e discurso público em um momento de alta polarização.
Fonte: G1