Copa do Mundo, tarifas e segurança: o novo período conflituoso nas relações entre Estados Unidos e Brasil

Decisões comerciais, divergências sobre segurança pública e até uma polêmica na Copa do Mundo passaram a ampliar as tensões entre Brasília e Washington, inaugurando um dos momentos mais delicados da relação bilateral nos últimos anos.

Por Lara Barth

Brasil e Estados Unidos enfrentam período conturbado nas relações bilaterais

A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um período de crescente tensão. Em poucos dias, três episódios distintos — uma disputa comercial envolvendo novas tarifas, divergências sobre segurança nacional e uma controvérsia durante a Copa do Mundo de 2026 — colocaram os dois países em lados opostos de debates que vão além da diplomacia tradicional.

No centro das discussões está o governo do presidente Donald Trump, que retomou uma postura mais assertiva em relação aos parceiros comerciais e tem ampliado a pressão sobre o Brasil em diferentes frentes.

Guerra comercial ganha novo capítulo

A principal tensão está no comércio.

O governo americano avalia impor uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, mecanismo utilizado para investigar práticas consideradas injustas ou prejudiciais ao comércio americano.

Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), algumas políticas brasileiras estariam restringindo empresas americanas em áreas como serviços digitais, meios de pagamento eletrônicos, propriedade intelectual e acesso a mercados.

Além dessa proposta, outra investigação conduzida pelo órgão poderá resultar em uma tarifa adicional de 12,5% sob a alegação de que o Brasil não combate de forma eficaz produtos ligados ao trabalho forçado. O governo brasileiro rejeita as acusações.

Negociações em Washington

Enquanto o governo brasileiro mantém negociações diplomáticas, representantes do setor produtivo dos dois países participaram nesta semana de audiências públicas em Washington para defender seus argumentos antes da decisão final da Casa Branca.

Empresários brasileiros alertaram para os impactos sobre setores como café, móveis, papel, arroz e mel, enquanto parte do setor privado americano também manifestou preocupação com possíveis efeitos negativos para consumidores e pequenas empresas dos Estados Unidos.

A decisão definitiva sobre as tarifas deverá ser anunciada após o encerramento das audiências públicas promovidas pelo USTR.

Segurança e soberania entram na pauta

Outro fator que elevou a tensão diplomática foi a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo americano.

Em resposta a um pedido de informações da Câmara dos Deputados, o chanceler Mauro Vieira afirmou que a medida pode abrir espaço para ações unilaterais dos EUA com impactos sobre cidadãos, empresas e instituições brasileiras.

Brasília sustenta que o combate às organizações criminosas deve ocorrer por meio da cooperação internacional e dentro dos mecanismos previstos pelo direito internacional, preservando a soberania nacional.

A Copa também entrou na crise

Nem mesmo a Copa do Mundo escapou das tensões diplomáticas. Após a expulsão do atacante americano Folarin Balogun em partida contra a Bósnia-Herzegovina, o presidente Donald Trump criticou publicamente a decisão do árbitro brasileiro Raphael Claus e afirmou ter solicitado à Fifa uma revisão da punição.

Em entrevista, Trump disse que Claus era "suspeito" e que poderia mostrar o histórico dele a repórteres. Segundo o jornal "The New York Times", o governo americano preparou uma espécie de dossiê sobre a carreira do árbitro, documento que teria sido usado pela federação americana no processo disciplinar que levou à liberação de Balogun.

Relação estratégica, mas sob pressão

Brasil e Estados Unidos mantêm uma das relações econômicas mais relevantes do continente. Os dois países possuem forte intercâmbio comercial, cooperação em áreas como ciência, tecnologia, defesa, energia e investimentos, além de manterem diálogo permanente em fóruns internacionais.

Nos próximos meses, as decisões do governo americano sobre as tarifas, o avanço das discussões envolvendo segurança e o ambiente político brasileiro às vésperas das eleições presidenciais deverão influenciar diretamente os rumos da relação entre duas das maiores economias das Américas.