Calor extremo pode causar mais atrasos e restrições em voos nos EUA, alertam especialistas
Altas temperaturas reduzem o desempenho dos aviões na decolagem e podem obrigar companhias aéreas a retirar passageiros, cargas ou combustível para garantir segurança.
Céu azul e ausência de tempestades nem sempre significam uma viagem tranquila de avião. Com o aumento das temperaturas, dias de calor extremo podem se tornar uma nova ameaça para a pontualidade dos voos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.
Em dias muito quentes, o ar fica menos denso, dificultando que as asas dos aviões gerem sustentação e que os motores produzam a potência necessária para a decolagem. Como consequência, companhias aéreas podem precisar reduzir o peso da aeronave, retirando cargas, limitando o combustível ou pedindo que passageiros embarquem em outros voos.
O problema já é conhecido em aeroportos de regiões desérticas, como no sudoeste americano e no Oriente Médio, mas especialistas afirmam que mesmo temperaturas menos extremas podem causar dificuldades em aeroportos localizados em áreas elevadas ou com pistas menores.
Durante uma onda de calor recente, Las Vegas mostrou como as altas temperaturas podem afetar o transporte aéreo. Em 24 de julho, a American Airlines ofereceu compensação a passageiros que aceitaram deixar voluntariamente um voo no Aeroporto Internacional Harry Reid, após a temperatura chegar a 47°C.
Segundo especialistas, a decisão de reduzir o peso da aeronave é uma prática comum em condições extremas e está relacionada às leis da física.
“Existe uma ciência por trás disso. Não é possível ignorar a ciência do voo e o que é necessário para um avião operar”, explicou Ross Aimer, ex-capitão da United Airlines.
O desempenho dos aviões em altas temperaturas é comparado por especialistas ao esforço de atletas em locais de grande altitude. Assim como pessoas têm mais dificuldade para respirar em ambientes com menos oxigênio, motores e asas também apresentam limitações quando o ar está mais rarefeito.
Antes de cada decolagem, pilotos e companhias calculam fatores como peso da aeronave, altitude do aeroporto, temperatura externa e comprimento da pista.
Aeroportos em regiões elevadas são mais vulneráveis porque já operam com ar menos denso. Em Denver, por exemplo, o aeroporto fica a mais de 1.500 metros acima do nível do mar. Pistas curtas, como as dos aeroportos LaGuardia, em Nova York, e Reagan National, em Washington, também podem exigir restrições durante ondas de calor.
Caso os cálculos indiquem que a aeronave não consegue decolar com segurança, as companhias podem reduzir a quantidade de carga, fazer uma parada para abastecimento, esperar temperaturas mais baixas ou oferecer remarcações voluntárias aos passageiros.
Pesquisas indicam que o problema pode se tornar mais frequente com o avanço das mudanças climáticas. Um estudo de 2017, envolvendo pesquisadores da Universidade Columbia, NASA e outras instituições, apontou que alguns aeroportos poderiam enfrentar restrições de peso em até 30% dos voos nos horários mais quentes do dia até a metade do século.
Dados analisados pela Associated Press mostram que cidades como Phoenix e Las Vegas já registram um aumento significativo de dias com temperaturas acima de 43°C.
O Aeroporto Internacional de Phoenix teve uma média de 43 dias por ano com temperaturas de pelo menos 43°C desde 2020. Já Las Vegas registrou cerca de 18 dias por ano acima desse nível entre 2020 e 2025 — mais que o dobro da média registrada em décadas anteriores.
Especialistas também destacam o chamado efeito ilha de calor urbana, causado pelo excesso de concreto, asfalto e pouca vegetação nos aeroportos, que contribui para temperaturas ainda mais elevadas nessas áreas.
Com ondas de calor se tornando mais frequentes, autoridades e companhias aéreas avaliam que atrasos e limitações de carga durante períodos extremos podem se tornar cada vez mais comuns.
Fonte: ABC