Médicos contestam ordem de Trump para mudar calendário de vacinas infantis
Presidente assinou decreto que recomenda alterações na vacinação de crianças e a aplicação separada das vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola; especialistas dizem que não há evidências de ligação entre vacinas e autismo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta segunda-feira uma ordem executiva que propõe mudanças nas recomendações para o calendário de vacinação infantil no país. A medida já provocou reação de organizações médicas e de saúde pública, que afirmam que as alterações não são respaldadas pelas evidências científicas disponíveis.
Entre as recomendações está a divisão da vacina tríplice viral (MMR) — que protege contra sarampo, caxumba e rubéola — em três vacinas separadas.
Durante a cerimônia de assinatura, Trump associou a discussão sobre vacinas ao aumento dos diagnósticos de autismo, afirmando que seriam necessárias novas recomendações para investigar a questão.
No entanto, décadas de estudos envolvendo milhões de pessoas não encontraram uma relação comprovada entre vacinas e autismo.
Comunidade médica reage
A ordem executiva provocou críticas de entidades médicas. O American College of Physicians afirmou que o governo deveria seguir os processos científicos utilizados há décadas para estabelecer o calendário de vacinação infantil.
“Este decreto faz parte de um padrão preocupante da administração de tentar alterar unilateralmente as orientações sobre vacinas, especialmente para crianças, em vez de se basear em uma análise científica transparente”, afirmou Jan K. Carney, presidente da organização.
O senador republicano Bill Cassidy, que é médico, também criticou a medida.
“Sou médico. Esta ordem executiva está errada. O presidente não tem conhecimento técnico para fazer essas mudanças. As vacinas são extremamente seguras. As vacinas são eficazes. As vacinas NÃO causam autismo”, escreveu Cassidy nas redes sociais.
A American Academy of Pediatrics estima que poderia levar até uma década para desenvolver vacinas separadas para cada uma das três doenças atualmente protegidas pela MMR.
Trump questiona calendário atual
Trump afirmou que crianças de décadas atrás recebiam uma quantidade muito menor de vacinas e que, naquela época, as pessoas eram “muito mais saudáveis”.
Especialistas, porém, destacam que doenças hoje preveníveis por vacinação provocavam milhares de casos graves e mortes.
Antes da introdução da vacina contra o sarampo, cerca de 400 a 500 pessoas morriam todos os anos nos Estados Unidos em decorrência da doença, enquanto aproximadamente 48 mil eram hospitalizadas. Atualmente, esses números estão próximos de zero, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).
O sarampo foi considerado eliminado nos Estados Unidos em 2000, mas os casos voltaram a aumentar nos últimos anos em meio à queda da cobertura vacinal.
Trump também afirmou que as taxas de autismo observadas atualmente não existiam no passado e sugeriu que haveria uma razão para o aumento.
Médicos, porém, explicam que o crescimento dos diagnósticos de autismo nas últimas décadas está amplamente relacionado a maior conscientização, mudanças nos critérios de diagnóstico e maior capacidade de identificar a condição.
As principais organizações médicas afirmam que o autismo não possui uma única causa e que fatores genéticos e relacionados ao desenvolvimento cerebral têm papel importante.
O que muda com a nova ordem?
A ordem executiva não altera imediatamente o acesso às vacinas. O documento determina que diferentes agências federais apresentem relatórios dentro de 90 dias sobre possíveis mudanças nas recomendações.
O CDC normalmente estabelece recomendações sobre quais vacinas devem ser aplicadas e em que idade. Essas orientações também podem influenciar a cobertura dos planos de saúde.
Segundo a Casa Branca, o novo plano recomenda a vacinação infantil contra 11 doenças, em comparação com 18 doenças contempladas nas recomendações do CDC em 2024.
A ordem também recomenda que as vacinas sejam aplicadas em consultas médicas separadas, dando aos pais mais opções sobre o momento e a frequência das doses.
Especialistas não veem benefício em separar a MMR
A proposta de dividir a MMR em três aplicações individuais já havia sido defendida por Trump anteriormente.
Porém, um artigo do próprio CDC publicado em 2024, que ainda estava disponível no site da agência nesta segunda-feira, afirma que não existe evidência científica publicada indicando benefício em separar a vacina combinada em três doses individuais.
O CDC também destaca que as vacinas não “sobrecarregam” o sistema imunológico dos bebês. Mesmo quando várias vacinas são administradas no mesmo dia, o sistema imunológico da criança enfrenta uma exposição muito maior a bactérias e vírus presentes no ambiente cotidiano.
A informação de que algumas vacinas teriam um volume de líquido equivalente ao de uma garrafa de refrigerante também é incorreta. Segundo a Johns Hopkins, uma vacina contém, em média, cerca de 0,5 mililitro de líquido, aproximadamente um décimo de uma colher de chá.
Trump e Kennedy fazem novas afirmações sobre autismo
O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., há anos manifesta ceticismo em relação à segurança das vacinas e à possibilidade de uma ligação com o autismo.
Durante a cerimônia, Kennedy e Trump fizeram afirmações sobre essa possível relação sem apresentar evidências científicas que comprovem a associação.
Kennedy argumentou que o aumento dos diagnósticos de autismo seria grande demais para ser explicado apenas por uma maior capacidade de identificação da condição.
No entanto, organizações médicas reiteram que não existe uma ligação conhecida entre vacinas e autismo.
A Casa Branca afirmou que o objetivo da ordem é responder às dúvidas dos pais e ampliar o debate sobre as recomendações de vacinação. O governo também declarou que continua recomendando as vacinas contra sarampo e poliomielite.
Fonte: ABC