El Niño pode atingir força histórica e provocar impactos no clima dos EUA e do mundo
NOAA aponta mais de 90% de chance de um El Niño "muito forte" até o fim do ano; fenômeno pode alterar chuvas, temperaturas, furacões e até pressionar recordes de calor global
Um El Niño potencialmente histórico está ganhando força no Oceano Pacífico e pode influenciar o clima dos Estados Unidos e de outras regiões do mundo nos próximos meses.
A previsão mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta que há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir a categoria “muito forte” durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte.
Entre outubro e dezembro, a NOAA estima 69% de chance de o episódio superar a intensidade de todos os El Niños registrados desde 1950. Atualmente, o fenômeno já é considerado o segundo mais forte para esta época do ano, atrás apenas do registrado em 1997.
“Estamos mais confiantes na possibilidade de um El Niño muito forte até o fim deste ano”, afirmou Michelle L'Heureux, cientista do Centro de Previsão Climática da NOAA.
O que é o El Niño?
O El Niño é a fase de aquecimento acima da média das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste. Ele faz parte do fenômeno conhecido como ENSO (El Niño-Oscilação Sul), que também inclui a La Niña, caracterizada pelo resfriamento dessas águas.
A intensidade do El Niño é determinada pela diferença entre a temperatura do oceano e a média histórica da região.
Embora expressões como “super El Niño” sejam populares nas redes sociais, “super” não é uma classificação oficial utilizada pela NOAA ou pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). As categorias oficiais vão de fraco a moderado, forte e muito forte.
Como o fenômeno pode afetar os EUA
Os efeitos mais consistentes do El Niño normalmente aparecem entre o fim do outono e o início da primavera, embora variem de uma temporada para outra.
Sul dos EUA: temperaturas próximas ou abaixo da média tendem a ser mais frequentes, enquanto o sul do país, incluindo áreas da Costa do Golfo e do Sudeste, costuma registrar mais chuva.
Nordeste: o fenômeno tende a favorecer temperaturas acima da média na metade norte do país. No Atlântico Médio e em áreas costeiras do Nordeste, pode aumentar a probabilidade de neve acima da média, enquanto regiões mais afastadas da costa podem ter condições mais secas.
Centro-Oeste: temperaturas mais elevadas são favorecidas nas Grandes Planícies do Norte e na região dos Grandes Lagos. Algumas áreas do Vale do Ohio e dos Grandes Lagos também podem apresentar menos precipitação.
Oeste: o Noroeste tende a ficar mais quente, enquanto Califórnia e partes do Sudoeste podem receber mais chuva. A neve pode aumentar nas Montanhas Rochosas do Sul e diminuir nas Montanhas Rochosas do Norte.
Alasca: os efeitos costumam ser mais pronunciados, com maior probabilidade de temperaturas e condições mais secas durante o inverno, além de redução da neve e da quantidade de água armazenada na cobertura de neve.
Havaí: após um período inicialmente mais chuvoso, o arquipélago tende a ficar mais seco durante o inverno e nos meses seguintes, aumentando os riscos de seca e incêndios florestais.
Os especialistas ressaltam, porém, que essas são tendências históricas e não garantem que todas as regiões experimentarão exatamente esses efeitos.
El Niño também interfere nos furacões
O fenômeno pode ter um impacto importante sobre a temporada de furacões.
No Atlântico, o El Niño geralmente reduz a atividade tropical ao produzir ventos em altitude que dificultam a formação e o fortalecimento dos ciclones.
No Pacífico Oriental, o efeito costuma ser contrário: as condições atmosféricas tendem a favorecer uma temporada de furacões mais ativa.
Outros fatores, como a temperatura da superfície dos oceanos, também são determinantes. Águas excepcionalmente quentes podem compensar parcialmente os efeitos desfavoráveis provocados pelo El Niño no Atlântico.
Novo risco: recordes de temperatura global
O fenômeno também pode influenciar as temperaturas do planeta.
2024 foi o ano mais quente já registrado, segundo a NOAA, após o El Niño que começou em 2023 e persistiu até a primavera de 2024.
Agora, a chegada de outro episódio forte aumenta a possibilidade de novos recordes nos próximos anos. Isso ocorre porque o aquecimento natural associado ao El Niño se soma à tendência de longo prazo provocada principalmente pelas emissões de gases de efeito estufa de origem humana.
Segundo Jon Gottschalck, do Centro de Previsão Climática da NOAA, o aquecimento das águas provocado pelo El Niño frequentemente contribui para temperaturas médias globais acima do normal.
A NOAA estima que há 99,9% de probabilidade de 2026 terminar entre os cinco anos mais quentes já registrados. A chance de o ano ser especificamente o mais quente, porém, ainda é inferior a 1%.
As probabilidades podem aumentar para 2027, já que os efeitos máximos do El Niño sobre a temperatura global normalmente aparecem com algum atraso.
Ou seja, mesmo que o fenômeno atinja seu pico ainda em 2026, seus efeitos mais intensos sobre o calor global podem ser sentidos nos meses seguintes, mantendo as temperaturas elevadas ao longo de 2027.
Fonte: ABC