Surto de ciclospora expõe queda nas inspeções da FDA em alimentos importados

Inspeções em instalações estrangeiras de alimentos caíram quase 35% desde 2019, incluindo na fazenda mexicana ligada ao surto de ciclospora associado a alface contaminada.

Por Lara Barth

U.S Food and Drug's Administration (FDA)

Um surto de ciclospora associado a alface contaminada em diferentes partes dos Estados Unidos aumentou a preocupação com a segurança de alimentos importados e também expôs um problema mais antigo: a redução nas inspeções realizadas por autoridades americanas em instalações de alimentos no exterior.
Registros da FDA, agência americana responsável pela fiscalização de alimentos e medicamentos, mostram que as inspeções em instalações estrangeiras caíram quase 35% desde 2019, antes da pandemia de Covid-19. Entre os locais afetados está uma fazenda da Taylor Farms, no México, apontada pelas autoridades americanas como a origem do surto.
A pandemia provocou uma onda de aposentadorias e saídas de inspetores da FDA, um problema que continua afetando a agência. Mesmo antes da Covid-19, a FDA já não conseguia cumprir as metas de inspeções internacionais estabelecidas pelo Congresso.
Ex-funcionários de alto escalão afirmam que cortes de pessoal, reorganizações e outras mudanças promovidas durante o governo de Donald Trump podem levar a uma redução ainda maior das inspeções nos próximos anos.
Em 2025, as inspeções de instalações estrangeiras de alimentos caíram 17%, para 1.140, segundo dados da FDA.
Inspetores demoraram um mês para chegar à fazenda
Os inspetores da FDA chegaram à unidade da Taylor Farms, no estado mexicano de Guanajuato, em meados de agosto, cerca de um mês depois do anúncio do recall, em 17 de julho.
Foi a primeira inspeção no local desde 2019 — justamente o ano em que a FDA registrou o maior número de inspeções internacionais de alimentos de sua história, antes de retirar grande parte de seus funcionários de campo durante a pandemia.
Especialistas em segurança alimentar questionaram a demora. O ex-chefe de segurança alimentar da FDA, Frank Yiannas, afirmou que as autoridades deveriam ter chegado mais rapidamente ao local, considerando a dimensão do surto e o número de pessoas afetadas.
O recall da Taylor Farms envolveu milhares de produtos de salada embalados que combinavam alface iceberg com outros vegetais. Os produtos foram distribuídos para grandes redes de restaurantes dos Estados Unidos, incluindo empresas do grupo Yum Brands, proprietário de Taco Bell, Pizza Hut e KFC.
FDA reconheceu erro em teste
Em julho, a FDA precisou retirar um resultado de laboratório que havia apontado a presença de ciclospora em uma amostra de alface da Taylor Farms coletada na fronteira.
Apesar do resultado falso positivo, autoridades americanas afirmam continuar confiantes de que a fazenda mexicana está ligada à origem do parasita, que pode causar diarreia e outros problemas gastrointestinais.
Autoridades mexicanas, porém, afirmam não ter encontrado amostras positivas ou outros sinais de contaminação na propriedade.
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, órgão ao qual a FDA está subordinada, informou que a investigação continua. A agência também avalia quantas inspeções internacionais deveriam ser realizadas por ano para garantir uma fiscalização comparável à aplicada à cadeia de alimentos americana.
Meta de inspeções nunca foi alcançada
A dificuldade da FDA em fiscalizar produtores estrangeiros não é recente.
Após uma série de surtos graves envolvendo alimentos como espinafre e melão, o Congresso aprovou em 2011 a Lei de Modernização da Segurança Alimentar. A legislação ampliou exigências de testes, treinamento e monitoramento das condições de higiene nas fazendas e estabeleceu metas mais rigorosas para inspeções internacionais.
Pela lei, a FDA deveria inspecionar mais de 19 mil instalações estrangeiras de alimentos por ano. O recorde, entretanto, foi de apenas 1.700 inspeções, em 2019 — menos de 10% da meta, segundo o Government Accountability Office.
Ex-reguladores afirmam que a meta é praticamente impossível de cumprir e nunca recebeu financiamento adequado do Congresso.
A força de trabalho responsável pelas inspeções de alimentos conta com mais de 420 funcionários, mas entre 10% e 15% das vagas permanecem desocupadas de forma crônica, segundo dados do órgão de fiscalização do governo americano.
Além disso, inspetores que trabalham no exterior podem passar metade ou mais do tempo viajando, uma rotina que contribui para a saída de funcionários e dificulta a contratação de profissionais experientes.
Especialistas defendem novas ferramentas, como aprendizado de máquina e monitoramento remoto de fornecedores, para reduzir a dependência das inspeções presenciais.
Ao mesmo tempo, uma regra criada pela legislação de 2011, que prevê códigos de barras para facilitar o rastreamento de lotes de alimentos em caso de contaminação, voltou a ser adiada pela FDA após pressão da indústria.
Segundo especialistas, o episódio mostra que o sistema americano precisa encontrar novas formas de fiscalizar a cadeia internacional de alimentos antes que produtos contaminados cheguem aos consumidores.

Fonte: NBC