Falhas em execuções reacendem debate sobre protocolo de injeção letal no Tennessee

Duas tentativas de execução terminaram sem a morte das condenadas em 2026. Especialistas apontam que mudanças nas regras reduziram detalhes sobre procedimentos e treinamento das equipes responsáveis pelas injeções.

Por Lara Barth

Christa Pike

As falhas em duas execuções por injeção letal no Tennessee neste ano levantaram questionamentos sobre os protocolos utilizados pelo estado. O caso mais recente foi o de Christa Pike, em setembro, que sobreviveu à tentativa de execução após enfrentar problemas durante a administração dos medicamentos.
Uma análise da CBS News sobre os documentos estaduais desde 2007 identificou que, ao longo dos anos, as regras passaram por quatro versões e se tornaram progressivamente menos detalhadas.
Kit Thomas, vice-chefe da unidade de defesa de condenados à morte do escritório federal de defensores públicos em Nashville, afirmou que o protocolo atual foi reduzido tanto em extensão quanto no nível de detalhamento. Segundo ela, a versão anterior à mudança de 2025 tinha mais de 100 páginas, enquanto o documento mais recente, divulgado no início daquele ano, passou a ter apenas 44.
Mudanças nos procedimentos e no treinamento
Entre as alterações mais relevantes estão as regras relacionadas à equipe responsável pela instalação das linhas intravenosas, utilizadas para administrar as substâncias letais.
Nas versões anteriores, os documentos descreviam detalhadamente as funções dessa equipe, os procedimentos para verificar o funcionamento dos equipamentos e as medidas a serem adotadas caso houvesse dificuldades na aplicação dos medicamentos.
No protocolo de 2025, a principal responsabilidade da equipe passou a ser resumida em uma única frase: estabelecer linhas intravenosas em condições adequadas para a administração das substâncias.
As regras anteriores também exigiam treinamentos mensais, incluindo exercícios de instalação de acesso intravenoso em voluntários que simulavam pessoas condenadas à morte. Essa exigência foi retirada na versão mais recente.
Thomas avalia que a redução dos detalhes pode dificultar a responsabilização dos funcionários quando os procedimentos não são cumpridos.
Duas execuções fracassaram em 2026
Os problemas ficaram evidentes nas tentativas de execução de Tony Carruthers e Christa Pike.
Carruthers estava programado para ser executado em maio, mas os integrantes da equipe passaram mais de uma hora tentando, sem sucesso, estabelecer uma linha intravenosa. Diante das dificuldades, o governador Bill Lee concedeu ao condenado um adiamento de um ano.
Em setembro, o procedimento com Christa Pike também enfrentou problemas. Segundo Randy Spivey, um dos advogados da condenada, a equipe tentou encontrar um acesso intravenoso durante cerca de uma hora, utilizando várias agulhas.
Após a administração dos medicamentos, Pike reclamou de dores no braço e disse sentir como se sua veia fosse estourar. Ela recebeu duas doses da substância letal, mas, depois que a segunda tentativa também falhou, o procedimento foi interrompido e ela recebeu atendimento médico.
Pike foi hospitalizada por vários dias antes de se recuperar o suficiente para retornar à prisão.
Após o episódio, o Departamento de Correções do Tennessee declarou que a equipe havia seguido todas as etapas previstas no protocolo oficial de execução.
Críticas à estrutura do sistema
Thomas e outros advogados de pessoas condenadas à morte já haviam questionado os procedimentos do estado em uma ação judicial apresentada no ano passado. No processo, eles alegaram a existência de uma cultura de descumprimento das regras dentro do Departamento de Correções e afirmaram que isso criaria risco de sofrimento extremo durante as execuções.
Para Thomas, os dois casos registrados em 2026 não foram acontecimentos imprevisíveis, mas problemas que já haviam sido apontados anteriormente.
Depois da tentativa frustrada de execução de Pike, o governador Bill Lee suspendeu temporariamente a próxima execução prevista e determinou uma revisão do protocolo.
Não é a primeira vez que Lee interrompe execuções para solicitar uma avaliação independente. Em 2022, uma revisão foi realizada após a descoberta de falhas na verificação dos medicamentos utilizados na execução de Oscar Smith.
Na ocasião, o relatório concluiu que o Departamento de Correções não contava com conhecimento técnico, orientação e assessoria adequados para conduzir o processo de injeção letal.
Thomas, porém, considera que os problemas são estruturais e não serão resolvidos apenas com uma nova versão do protocolo. Em entrevista à CBS News, ela destacou que duas pessoas sobreviveram a tentativas de execução no mesmo ano, situação que, segundo ela, está longe de ser normal.
O Departamento de Correções do Tennessee foi procurado pela CBS News para comentar as críticas, mas não havia apresentado resposta até a publicação da reportagem.

Fonte: CBS