Departamento de Justiça dos EUA pede punições contra grupo que questionou lista de supostos eleitores não cidadãos

Órgão afirma que análise divulgada por organização de defesa dos imigrantes violou ordem judicial. Grupo identificou possíveis erros em mais de 40% dos registros analisados.

Por Lara Barth

Votação antecipada em Miami-Dade para a eleição primária teve início.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos pediu a um juiz federal que avalie a possibilidade de responsabilizar por desacato uma organização de defesa dos direitos dos imigrantes e seus advogados. A medida foi solicitada após o grupo divulgar uma análise de uma lista com mais de 20 mil pessoas que o governo Trump aponta como possíveis não cidadãos registrados para votar na Califórnia.
Na sexta-feira, o juiz-chefe James Boasberg, do Tribunal Distrital dos EUA em Washington, autorizou a Coalition for Humane Immigrant Rights (CHIRLA) a acessar dados federais sobre os nomes. A ordem, porém, determinava que os autores da ação não divulgassem nenhuma identidade e utilizassem as informações exclusivamente para fundamentar seus argumentos sobre o direito de contestar o uso da lista pelo governo.
No sábado, os advogados da organização apresentaram documentos ao tribunal com os resultados da análise. Segundo o levantamento, mais de 40% das pessoas listadas não aparecem no cadastro eleitoral da Califórnia. O grupo também identificou 22 nomes que provavelmente pertencem a cidadãos americanos naturalizados e afirmou que milhares de outros cidadãos dos EUA podem estar incluídos no levantamento.
Em manifestação apresentada no domingo, o Departamento de Justiça alegou que a divulgação não tinha relação com a questão jurídica em discussão e violou a determinação do juiz. O órgão também sugeriu que Boasberg encaminhe o caso ao próprio Departamento de Justiça para investigar a possibilidade de desacato criminal.
A equipe jurídica da CHIRLA, que contou com a análise de dados do Voting Rights Project da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), negou qualquer irregularidade. Em comunicado, afirmou que os advogados e especialistas envolvidos cumpriram integralmente as ordens judiciais.
Outra disputa judicial na Califórnia
Em um processo separado, o Departamento de Justiça também recorreu, no domingo, de uma decisão da juíza federal Trina L. Thompson, de San Francisco. Na sexta-feira à noite, ela proibiu o governo de exigir que autoridades eleitorais retirassem possíveis não cidadãos dos registros de eleitores, separassem suas cédulas ou fossem ameaçadas com medidas judiciais.
O departamento argumentou que a decisão foi tomada antes que o governo federal pudesse apresentar sua defesa inicial. A juíza marcou uma audiência para segunda-feira para analisar o recurso.
A disputa faz parte de uma série de processos em que o governo Trump tenta utilizar listas de supostos eleitores não cidadãos para pressionar autoridades estaduais a revisar os cadastros eleitorais. Na Califórnia, um juiz federal já havia rejeitado a exigência de separar cédulas atribuídas a essas pessoas. Na decisão, ele alertou que uma determinação de última hora poderia causar grande desorganização no processo eleitoral. Dois juízes de apelação concordaram com o entendimento.
Autoridades eleitorais da Califórnia afirmam que a lista contém numerosos erros e que não há tempo suficiente para realizar as verificações exigidas por lei antes da eleição. Nos Estados Unidos, os eleitores declaram ser cidadãos americanos ao se registrar, e pessoas que votam sem ter direito podem responder criminalmente.
O governo Trump sustenta que a lista foi elaborada a partir de dados estaduais de registro eleitoral, cruzados com registros federais de cidadania. O Departamento de Justiça também emitiu intimações para órgãos eleitorais da Califórnia e alertou que autoridades que permitirem conscientemente o voto de não cidadãos poderão enfrentar acusações criminais.

Fonte: ABC