Duas mulheres avançam mais do que qualquer outra na história em treinamento para integrar os Navy SEALs

Uma oficial da Marinha e uma militar alistada chegaram à terceira semana do rigoroso curso de formação na Califórnia. Ambas foram afastadas antes de concluir o treinamento, mas estabeleceram um novo marco para a participação feminina na unidade de elite.

Por Lara Barth

Navy Seals

Duas mulheres que tentavam ingressar nos Navy SEALs, força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos, avançaram mais do que qualquer outra candidata na história do programa. Apesar de não terem concluído o treinamento, elas chegaram à terceira semana do curso Basic Underwater Demolition/SEAL (BUD/S), realizado na Base Naval Anfíbia de Coronado, na Califórnia.
Segundo informações obtidas pela CBS News, as candidatas eram uma oficial da Marinha e uma militar alistada. A oficial foi transferida para a turma seguinte e, posteriormente, pediu para deixar o curso antes da chamada Hell Week. Já a militar alistada foi retirada do treinamento por motivos médicos durante essa etapa.
A Hell Week, ou “Semana do Inferno”, começa na quarta semana do programa e é considerada uma das fases mais extremas da formação. O teste dura cinco dias e meio e submete os participantes a desafios físicos e psicológicos intensos. A CBS News optou por não divulgar os nomes das duas mulheres por razões de segurança e privacidade.
Chegar até essa fase já representa um feito significativo. Dados da Marinha referentes ao período entre 1998 e 2023 mostram que aproximadamente 45% dos candidatos são eliminados ou transferidos para outra turma nas primeiras três semanas, antes do início da Hell Week.
Durante o teste, os participantes dormem cerca de quatro horas ao longo de cinco dias e enfrentam atividades como carregar troncos, lançar barcos contra ondas fortes, permanecer deitados na água gelada do oceano e correr aproximadamente 320 quilômetros.
Em comunicado, um porta-voz do Comando de Guerra Especial Naval afirmou que a instituição não comenta detalhes sobre a seleção ou eliminação de candidatos, nem sobre o estágio em que cada participante se encontra, para preservar a privacidade dos militares e a integridade do treinamento.
Mulheres nas forças de operações especiais
A participação feminina em funções de combate nas Forças Armadas americanas foi ampliada gradualmente. Durante a Segunda Guerra Mundial, mulheres já atuavam ao lado de unidades de operações especiais, reunindo informações de inteligência e coordenando o envio de suprimentos e operações de combate para o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), organização que antecedeu a CIA e o atual Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos.
Em 1988, o Departamento de Defesa adotou uma política conhecida como Risk Rule, que restringia a participação feminina em funções consideradas expostas a riscos de combate. Durante a Guerra do Golfo, porém, algumas militares foram expostas a situações de combate, mesmo estando oficialmente designadas para funções de apoio.
Em dezembro de 1991, o Congresso revogou a restrição que impedia mulheres de atuar na aviação de combate. Três anos depois, o então secretário de Defesa Les Aspin cancelou a política Risk Rule, mas manteve a proibição de mulheres em unidades de combate terrestre direto abaixo do nível de brigada.
A restrição foi derrubada em 2013 pelo secretário de Defesa Leon Panetta. Em 2016, as mulheres passaram a poder se candidatar aos processos seletivos dos Navy SEALs, dos Rangers do Exército e dos Boinas-Verdes.
Desde então, milhares ingressaram em unidades de infantaria, blindados e artilharia. Ainda assim, poucas tentaram entrar nas unidades de operações especiais de elite, e apenas um número reduzido conseguiu concluir os rigorosos processos de seleção e formação.
Alto índice de desistência
Os dados da Marinha mostram que cerca de 68% dos candidatos aos Navy SEALs não chegam à conclusão do processo de formação. A maior taxa de desistência ocorre na primeira fase, que dura sete semanas e inclui a Hell Week. Nesse período, aproximadamente 66% são eliminados ou transferidos para outra turma.
Quase metade dos participantes não supera as três semanas anteriores à prova de resistência. Cerca de 29% desistem voluntariamente nesse estágio. Durante a própria Hell Week, aproximadamente 21% deixam o treinamento por decisão própria ou devido a problemas médicos ou de desempenho.
Nas etapas seguintes, o índice de desistência cai: cerca de 5% na segunda fase, voltada ao mergulho de combate, e 3% na terceira, dedicada à guerra terrestre. Menos de 1% abandona o curso de qualificação dos SEALs, etapa final antes da designação para uma equipe operacional.
Em 2021, uma militar se tornou a primeira mulher a concluir o programa de formação de guerra especial naval para integrar os Special Warfare Combatant-Craft Crewmen (SWCC), operadores especializados em embarcações rápidas e fortemente armadas usadas para transportar os Navy SEALs e realizar outras missões marítimas. Os SWCCs fazem parte do Comando de Guerra Especial Naval, mas passam por um processo de seleção e treinamento separado.
Mulheres também avançam em outras unidades de elite
Em outras forças de operações especiais, mulheres também enfrentaram processos seletivos rigorosos. Segundo o Military Times, 17 tentaram ingressar nos Marine Raiders, unidade de operações especiais dos fuzileiros navais, mas nenhuma havia sido aprovada até 2024. Na Força Aérea, 54 mulheres haviam iniciado treinamentos para funções de operações especiais, mas apenas algumas conseguiram concluí-los.
Em 2020, uma militar da Guarda Nacional se tornou a segunda mulher a concluir o curso de qualificação das Forças Especiais do Exército e integrar uma equipe de Boinas-Verdes. A primeira foi a capitã Kathleen Wilder, em 1980. Segundo uma reportagem de 2023 do Military.com, menos de dez mulheres haviam conquistado o distintivo dos Boinas-Verdes.
No 75º Regimento de Rangers, unidade de elite do Exército especializada em operações de alto risco, tomada de aeródromos e grandes ações de combate, menos de uma dúzia de mulheres já havia servido. Todos os integrantes precisam passar pelo processo seletivo e pelos testes da Escola de Rangers, independentemente da função.
Uma delas é Hailey Gibbons, ex-capitã e formada pela Academia Militar de West Point, que concluiu a Escola de Rangers em 2021. Ela trabalhou como especialista em logística no regimento até deixar as Forças Armadas, em 2023.
Em entrevista à CBS News, Gibbons afirmou que todos os integrantes da unidade precisam ser Rangers, inclusive os que atuam em funções de apoio. Para ela, fazer parte da equipe significava integrar efetivamente o grupo, e não apenas prestar assistência.
Debate sobre padrões físicos e participação feminina
A presença de mulheres em funções de combate e em unidades especiais ainda enfrenta resistência dentro da comunidade militar. Enquanto as duas candidatas avançavam no treinamento dos Navy SEALs, algumas ex-integrantes da unidade e perfis ligados ao meio militar criticaram a participação feminina nas redes sociais.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, também questionou repetidamente a presença de mulheres em funções de combate terrestre e operações especiais. Antes de ser indicado ao cargo, ele afirmou, em entrevista a um podcast apresentado pelo ex-Navy SEAL Shawn Ryan, que mulheres não deveriam ocupar funções de combate.
Durante sua sabatina de confirmação, porém, Hegseth declarou que elas poderiam continuar tendo acesso a essas funções, desde que os padrões de exigência fossem mantidos. Ele não apresentou exemplos de critérios que teriam sido flexibilizados, mas disse ter ouvido de militares que os padrões haviam mudado de maneiras diretas e indiretas.
No início deste ano, o Pentágono encomendou um estudo para avaliar a atuação de mulheres em funções de combate terrestre. Em declaração à CBS News, a porta-voz da pasta, Kingsley Wilson, afirmou que o objetivo era garantir o cumprimento dos padrões e manter a capacidade operacional das Forças Armadas.
Gibbons contestou a ideia de que os critérios de seleção das unidades especiais tenham sido reduzidos para permitir a entrada de mulheres. Segundo ela, os padrões continuam os mesmos e nenhum comandante aceitaria comprometer a exigência física e operacional de sua unidade.

Fonte: CBS