Conteúdo adulto pode ser taxado? Proposta de "imposto do pecado" nos EUA gera reação de criadoras

Ideia de candidato ao governo da Flórida de cobrar 50% sobre ganhos do OnlyFans é acusada de moralismo e preconceito institucional

Por Lara Barth

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Uma proposta apresentada por James Fishback, candidato ao governo da Flórida, reacendeu o debate sobre moralidade, tributação e trabalho digital nos Estados Unidos. O político defende a criação de um chamado “Imposto do Pecado”, que prevê a taxação de 50% sobre a renda de criadores de conteúdo adulto no OnlyFans. A iniciativa provocou forte reação de profissionais da plataforma, que classificam a medida como discriminatória e economicamente injusta.

Entre as críticas está a de Anya Lacey, conhecida no OnlyFans por conteúdos que dialogam com a estética da “esposa tradicional”. Para ela, a proposta impõe uma punição moral seletiva. “Se álcool, maconha e casas de strip-tease também podem ser considerados pecados, por que apenas o OnlyFans seria taxado dessa forma?”, questionou em entrevista ao New York Post.

Outra voz de peso no debate é Sophie Rain, apontada como a criadora mais bem-sucedida da plataforma, com ganhos estimados em US$ 95 milhões entre 2023 e 2025. Ela lembrou que já paga cerca de 37% em impostos e criticou o que considera desigualdade no sistema tributário. “Eu pagaria mais tranquilamente se grandes corporações também fossem tributadas corretamente”, afirmou em vídeo publicado no X.

No Brasil, a proposta também repercutiu. Paula Aguiar, presidente da Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto (ABIPEA), avaliou que a taxação representa um retrocesso. Segundo ela, uma cobrança desse porte reduziria a renda das trabalhadoras, enfraqueceria sua autonomia financeira e aumentaria a vulnerabilidade social. “Isso não é proteção, é preconceito institucionalizado”, afirmou à *Marie Claire*.

Fishback justifica o imposto como uma forma de desestimular a produção e o consumo de pornografia, alegando preocupação com jovens cristãos que, segundo ele, seriam influenciados negativamente por esse tipo de conteúdo. O candidato diz que os recursos arrecadados — estimados em US$ 200 milhões — seriam destinados a programas de educação, saúde mental e apoio a gestantes em situação de risco.

Especialistas e representantes do setor, no entanto, discordam. Para Aguiar, a taxação não reduziria o consumo, apenas empurraria o mercado para a informalidade, sem regras ou proteção. Dados reforçam o argumento: relatórios do Pornhub e do OnlyGuider indicam que os Estados Unidos lideram tanto o consumo quanto os gastos com pornografia e OnlyFans, somando mais de US$ 2 bilhões em 2025.

Mesmo entre eleitores conservadores, a proposta divide opiniões. Enquanto alguns defendem uma repressão ainda mais dura, outros avaliam que a taxação pode ter efeito contrário, incentivando o governo a lucrar com um setor que diz querer combater.

Fonte: Marie Claire