Famílias denunciam atrasos e redução de terapias para crianças com autismo na Flórida

Pais, professores e terapeutas afirmam que mudanças no Medicaid estão dificultando acesso ao tratamento ABA

Por Lara Barth

Famílias, educadores e profissionais de saúde realizaram um protesto em Doral, no sul da Flórida, para denunciar dificuldades no acesso a terapias para crianças com autismo e outras condições de desenvolvimento após mudanças implementadas pelo estado no sistema Medicaid.

Os manifestantes afirmam que a nova política, criada para aumentar a fiscalização e combater fraudes, está causando atrasos, cortes de atendimento e redução nas opções de tratamento para milhares de crianças.

A principal preocupação envolve a terapia ABA (Applied Behavior Analysis), considerada um dos tratamentos mais utilizados para crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista.

A professora Milagros Gil disse estar presenciando o impacto diretamente na sala de aula.

“Essa é a coisa mais triste que eu já vi”, afirmou. Segundo ela, crianças que apresentavam avanços importantes começaram a perder habilidades desenvolvidas ao longo de anos de tratamento.

“Você acompanha essas crianças por cinco anos. Algumas começam sem falar e depois conseguem se comunicar. Agora estamos vendo retrocessos”, relatou.

O protesto ocorreu em frente ao escritório da Agency for Health Care Administration (AHCA), órgão responsável pelo sistema de saúde pública da Flórida. O ato contou com o apoio da ABA Providers Advocacy Alliance, grupo que representa clínicas e profissionais da área.

As mudanças começaram em fevereiro do ano passado, quando o estado transferiu a administração da cobertura da terapia ABA para planos privados de saúde vinculados ao Medicaid. Agora, essas empresas são responsáveis por aprovar tratamentos e realizar pagamentos.

O governo afirma que a medida busca reduzir custos e combater fraudes no sistema. No entanto, famílias e terapeutas alegam que a nova política está afetando também pacientes legítimos e profissionais qualificados.

“Se existem casos de fraude, investiguem os responsáveis. Não fechem tudo para todo mundo”, disse Michelle Roselle, mãe de uma criança em tratamento.

Pais relatam redução nas horas de terapia, interrupção de atendimentos, menos clínicas disponíveis e aumento das filas de espera. Alguns terapeutas também afirmam que não conseguiram credenciamento junto às seguradoras e acabaram fora da rede de atendimento.

Yolanda Roman, mãe de uma criança autista, afirmou que o impacto é devastador.

“Quando cortam as horas dessas crianças, elas regridem. Tudo o que conquistaram volta praticamente ao zero”, disse.

Outra mãe, Liliana Sanchez, contou que seus dois filhos tiveram redução nas horas de terapia e passaram a apresentar dificuldades de comportamento.

Em nota enviada à NBC6, a Agency for Health Care Administration afirmou que a integração da terapia ABA ao sistema de gestão privada do Medicaid melhorou a coordenação dos cuidados e mantém mecanismos de monitoramento para garantir o acesso ao tratamento.

O órgão também afirmou que acompanha de perto a disponibilidade de profissionais, a utilização dos serviços e as reclamações de famílias e provedores.

Mesmo assim, grupos de defesa do autismo pedem mudanças urgentes para evitar que crianças percam tratamentos considerados essenciais para seu desenvolvimento.

Fonte: NBC