Homem processa polícia da Flórida após ser preso por engano por reconhecimento facial com IA

Morador afirma que tecnologia identificou erroneamente seu rosto como o de suspeito procurado e resultou em prisão injusta

Por Lara Barth

Polícia foi chamada para atender a ocorrência

Um morador da Flórida está processando autoridades policiais após ser preso injustamente em um caso que, segundo ele, foi provocado pelo uso inadequado de tecnologia de reconhecimento facial baseada em inteligência artificial.

Richard Dillon foi detido em 2024 sob a acusação de tentar atrair uma criança de 12 anos para longe dos pais em um restaurante McDonald's de Jacksonville Beach. No entanto, ele afirma que estava a mais de 480 quilômetros de distância quando o crime ocorreu.

As acusações foram posteriormente retiradas, mas agora Dillon integra uma ação movida pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) contra o Departamento de Polícia de Jacksonville Beach e outras autoridades envolvidas.

Reconhecimento facial apontou "93% de compatibilidade"

Segundo o processo, investigadores utilizaram o sistema de reconhecimento facial FACESNXT após analisarem imagens de vigilância relacionadas ao caso.

O software apontou Dillon como possível suspeito, indicando uma compatibilidade facial de 93%.

A partir dessa informação, a polícia passou a tratá-lo como principal investigado.

"Os policiais permitiram que um sistema de inteligência artificial sujeito a erros substituísse uma investigação adequada", afirma a ação judicial.

Homem diz que diferenças eram evidentes

Dillon relatou que, durante uma ligação com um policial, negou qualquer envolvimento no caso e destacou que possui cicatrizes visíveis no rosto, resultado de uma cirurgia para remoção de câncer de pele.

Segundo ele, ao comparar sua fotografia com as imagens do suspeito, as diferenças eram claras.

"As cicatrizes não têm nenhuma semelhança. Fiquei completamente chocado", afirmou.

Apesar das explicações, ele acabou sendo preso oito meses depois em sua residência por agentes do condado de Lee.

Prisão trouxe consequências financeiras e emocionais

Após passar uma noite na cadeia, Dillon precisou pedir dinheiro emprestado e usar o título de seu caminhão como garantia para pagar a fiança.

Cerca de dois meses depois, todas as acusações foram arquivadas.

Mesmo assim, ele afirma que os impactos permanecem.

"Minha vida mudou completamente. Hoje penso duas vezes antes de interagir com crianças em locais públicos porque tenho medo de ser mal interpretado", disse.

Segundo Dillon, ele ainda sente que as pessoas o observam e o associam às acusações divulgadas pela imprensa.

Especialistas alertam para riscos da tecnologia

O caso reacende o debate sobre o uso crescente de sistemas de reconhecimento facial por forças policiais nos Estados Unidos.

De acordo com o Centro de Privacidade e Tecnologia da Universidade de Georgetown, bancos de dados públicos já contêm imagens de aproximadamente 117 milhões de americanos utilizadas por essas ferramentas.

Especialistas destacam que os sistemas de reconhecimento facial não identificam suspeitos de forma definitiva, mas apenas geram listas de possíveis correspondências que deveriam servir como ponto de partida para investigações adicionais.

Nathan Freed Wessler, advogado da ACLU especializado em privacidade e tecnologia, afirma que muitos agentes acabam tratando uma possível correspondência como prova concreta.

"Essa tecnologia não produz uma identificação definitiva. Ela apenas sugere possíveis candidatos que precisam ser investigados", explicou.

Processo aponta falhas na investigação

A ação também alega que a polícia não apresentou fotografias ao menor envolvido para confirmar a identidade do suspeito.

Segundo o processo, a identificação utilizada pelas autoridades teria sido feita por um funcionário do restaurante que não presenciou diretamente a interação entre o suspeito e a criança.

Para Dillon, o objetivo da ação judicial vai além de sua própria situação.

"Espero que isso impeça outras pessoas de passarem pelo trauma que eu vivi", declarou.

Fonte: CBS