Grande júri aponta uso indevido de US$ 10 milhões no caso Hope Florida; relatório não recomenda acusações

Documento mantido sob sigilo por sete meses afirma que dinheiro de um acordo relacionado ao Medicaid passou pela fundação associada à primeira-dama Casey DeSantis e chegou a comitês políticos. Governador nega participação e chama o caso de "farsa".

Por da redação

Ron DeSantis

Atualizada em 27 de agosto de 2026

TALLAHASSEE — Um grande júri estadual concluiu que US$ 10 milhões provenientes de um acordo de saúde foram destinados indevidamente pela administração do governador Ron DeSantis e posteriormente utilizados para atividades políticas na Flórida.

A conclusão aparece em um relatório de 19 páginas do grande júri, protocolado em 28 de janeiro e mantido sob sigilo durante aproximadamente sete meses. Uma cópia foi obtida e divulgada inicialmente pela CBS News Miami.

Apesar das fortes críticas à administração estadual, o painel declarou não ter encontrado provas suficientes para apresentar acusações criminais contra qualquer pessoa.

O relatório não afirma que Ron DeSantis tenha desviado ou recebido pessoalmente o dinheiro. Também não atribui à primeira-dama Casey DeSantis a autorização das transferências. A ligação de Casey com o caso decorre de seu papel como principal promotora do programa Hope Florida.

De onde vieram os US$ 10 milhões

O dinheiro fazia parte de um acordo de aproximadamente US$ 67 milhões entre o estado da Flórida e a Centene Corporation, relacionado a alegações de cobranças excessivas envolvendo medicamentos e programas de saúde destinados a famílias e crianças de baixa renda.

Pelos termos finais, cerca de US$ 57 milhões seriam pagos diretamente ao estado, enquanto US$ 10 milhões seriam enviados à Hope Florida Foundation, organização sem fins lucrativos ligada ao programa social promovido por Casey DeSantis.

Integrantes da administração argumentaram que os US$ 10 milhões representavam uma contribuição adicional ou um “bônus”, e não dinheiro público. O grande júri rejeitou essa interpretação e concluiu que o valor fazia parte da indenização devida aos contribuintes.

A própria Flórida posteriormente calculou e pagou a participação do governo federal com base no acordo integral de US$ 67 milhões, segundo informações confirmadas pela administração estadual.

Como o dinheiro circulou

A Centene transferiu os US$ 10 milhões para a Hope Florida Foundation em 4 de outubro de 2024. Em menos de 25 dias, todo o valor havia deixado a fundação.

A Hope Florida concedeu dois repasses de US$ 5 milhões:

* US$ 5 milhões para a Secure Florida’s Future;
* US$ 5 milhões para a Save Our Society from Drugs.

De acordo com a análise dos registros bancários apresentada ao grande júri, US$ 3,75 milhões da primeira organização e US$ 4,75 milhões da segunda foram enviados ao comitê político Keep Florida Clean.

No total, o comitê recebeu US$ 8,5 milhões. O Keep Florida Clean era presidido por James Uthmeier, então chefe de gabinete de DeSantis e atual procurador-geral da Flórida.

O relatório registra uma transferência bruta de US$ 7 milhões do comitê para o Partido Republicano da Flórida — com US$ 2 milhões devolvidos posteriormente pelo partido — e mais de US$ 1,23 milhão para o Florida Freedom Fund, outro comitê presidido por Uthmeier.

Os recursos foram empregados na campanha contra a Emenda 3 de 2024, proposta que pretendia legalizar o uso recreativo da maconha para adultos na Flórida. A medida recebeu a maioria dos votos, mas não alcançou os 60% necessários para entrar em vigor.

O que o relatório afirma

O grande júri considerou que os pedidos apresentados pelas duas organizações à Hope Florida não descreveram corretamente a finalidade política que o dinheiro teria posteriormente.

O documento também concluiu que:

* o acordo foi concluído rapidamente, depois de anos de pouca movimentação;
* a Assembleia Legislativa não foi formalmente notificada;
* não foram estabelecidas restrições para a utilização dos US$ 10 milhões;
* faltaram fiscalização e mecanismos de transparência;
* ninguém assumiu a responsabilidade pela decisão inicial de enviar o dinheiro à Hope Florida.

O relatório coloca Uthmeier em uma posição de autoridade sobre integrantes envolvidos no acordo e aponta sua participação na orientação do dinheiro depois que os recursos chegaram à fundação. Entretanto, nenhum depoente identificou quem determinou originalmente que os US$ 10 milhões fossem destinados à Hope Florida.

Ashley Moody, então procuradora-geral da Flórida e atualmente senadora federal, autorizou seu vice, John Guard, a assinar o acordo após ser consultada, segundo o documento. O grande júri criticou Guard por não realizar a verificação necessária sobre a destinação dos recursos.

DeSantis, Moody e Uthmeier não foram convocados para depor perante o grande júri.

Por que ninguém foi acusado

Embora tenha concluído que houve uso indevido de dinheiro público, o grande júri declarou não ter conseguido identificar, com o nível de prova necessário para um processo criminal, quem tomou a decisão original.

Segundo o painel, os participantes afirmaram não se lembrar ou não assumiram a responsabilidade pela determinação. O relatório, portanto, não recomenda indiciamentos ou acusações criminais.

Resposta de DeSantis

Questionado sobre o caso, DeSantis afirmou que não participou do acordo, mas que estava satisfeito com a maneira como o processo foi conduzido. O governador voltou a classificar a controvérsia como uma “farsa”, segundo a WLRN e a CBS News Miami.

O gabinete do governador também qualificou as denúncias como um ataque sem fundamento e afirmou que o vazamento de um documento confidencial pode constituir crime.

Uthmeier classificou a investigação como politicamente motivada e destacou que nenhuma acusação criminal foi apresentada. O relatório, contudo, diferencia a falta de provas para responsabilizar criminalmente uma pessoa da conclusão administrativa de que o dinheiro foi usado indevidamente.

Recomendações

O grande júri recomendou que a Assembleia Legislativa da Flórida aprove uma lei obrigando que todo dinheiro recebido pelo estado seja depositado no General Revenue Fund.

O painel também pediu regras mais claras para controlar como organizações ligadas a órgãos estaduais podem receber e utilizar recursos públicos, incluindo fiscalização, prestação de contas e penalidades por violações.

O documento continua oficialmente sob sigilo. A cópia divulgada pela imprensa não representa uma liberação formal pelo tribunal.

Fontes principais: relatório completo do grande júri, reportagem original da CBS News Miami e investigação Florida Trident/WGCU.