Empresa que operava avião da Amazon em acidente de Miami já havia recebido denúncias de segurança

Ex-funcionários da 21 Air relataram supostas falhas de manutenção, descanso insuficiente de pilotos e problemas na comunicação; NTSB ainda investiga as causas do acidente.

Por Lara Barth

Aeroporto de Miami não conta com sistema de segurança para aviões que saem da pista

A empresa responsável pela operação do avião de carga da Amazon que saiu da pista do Aeroporto Internacional de Miami no domingo (6), deixando cinco pessoas mortas, já havia sido alvo de denúncias relacionadas à segurança feitas por ex-funcionários.
Documentos judiciais e entrevistas analisados pela CBS News mostram que a 21 Air, companhia aérea de carga sediada na Carolina do Norte, foi acusada por antigos funcionários de supostamente violar normas de segurança e de retaliar profissionais que levantavam preocupações.
A empresa, contratada pela Amazon para operar voos de carga, é controlada por meio de uma LLC pelo empresário Jim Crane, proprietário do time de beisebol Houston Astros.
Um dos ex-funcionários que apresentou uma denúncia foi Karl Seuring, piloto com mais de 30 anos de experiência. Ele afirmou que a 21 Air possui um histórico prolongado de problemas de segurança e alegou ter sido demitido depois de questionar procedimentos da companhia.
A Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (OSHA) rejeitou inicialmente a denúncia de Seuring sobre uma possível demissão retaliatória. O recurso levou o caso a um tribunal do Departamento do Trabalho em 2023, onde o processo continua pendente.
Ex-pilotos relatam supostas falhas
Seuring e outros ex-pilotos da 21 Air alegaram, em documentos judiciais, que gestores teriam desencorajado o registro de problemas de segurança, pressionado tripulações a voar sem períodos adequados de descanso, colocado pilotos com dificuldades de comunicação em inglês em determinadas operações e permitido que aeronaves com problemas mecânicos continuassem voando.
Bruce Joseph, ex-chefe de pilotos da empresa, também afirmou em depoimento que tinha conhecimento de pessoas que teriam sido desencorajadas a registrar preocupações no sistema de segurança da companhia.
Segundo Joseph, em algumas ocasiões, funcionários teriam sido orientados a não inserir determinadas informações no sistema antes de conversar com executivos da empresa. Ele afirmou que muitos dos relatos acabavam não sendo registrados.
O então CEO da 21 Air, Mike Mendez, negou as acusações de retaliação e afirmou em depoimento que sua responsabilidade era garantir que a companhia operasse com segurança.
Mendez também contestou as declarações de Joseph, dizendo acreditar que o ex-chefe de pilotos tentava fazer acusações prejudiciais contra a empresa.
Pilotos relatam incidentes anteriores
Seuring também descreveu um incidente ocorrido em abril de 2022, quando estava no assento auxiliar de um Boeing 767 da 21 Air durante uma decolagem em Newark, Nova Jersey.
Segundo seu depoimento, um problema mecânico fez com que a aeronave continuasse acelerando de forma acentuada após a decolagem, atingindo velocidades que poderiam causar danos aos flaps das asas. Ele afirmou ter ficado preocupado com a própria segurança.
O piloto também relatou uma suposta falha de comunicação entre o comandante e o primeiro oficial após o episódio.
Em outro caso, Seuring afirmou que uma aeronave da 21 Air que voava do Alabama para Trinidad apresentou um problema de pressurização e precisou fazer um pouso de emergência em Porto Rico. O então gerente da frota, Amir Anoshiravani, negou que o incidente tenha ocorrido da forma descrita.
Outro ex-piloto, Tony Bless, afirmou que o acidente de Miami não o surpreendeu e citou supostos problemas de manutenção, pressão sobre pilotos e critérios de contratação.
Bless também alegou que a empresa frequentemente adiava serviços de manutenção e que problemas ocorriam com frequência em aeronaves antigas que haviam sido convertidas de aviões de passageiros para cargueiros.
Denúncias sobre manutenção e descanso
Bless relatou um episódio de 2022 em que o radar de um avião da 21 Air teria parado de funcionar durante um voo entre Bermuda e Nova Jersey, justamente quando a tripulação enfrentava fortes turbulências.
Seuring também citou supostos problemas anteriores envolvendo vazamentos de combustível, radares, disjuntores elétricos e fumaça na cabine.
Segundo ele, os pilotos também enfrentavam dificuldades para descansar durante voos longos. O ex-presidente do sindicato dos pilotos da 21 Air afirmou que algumas aeronaves não tinham boas condições para o descanso da tripulação.
Em 2021, o ex-piloto de caça Don Helmig chegou a enviar uma carta de renúncia ao principal acionista da empresa, Jim Crane, na qual alertava sobre problemas relacionados a programação de voos, treinamento, comunicação, resposta a emergências e cultura de segurança.
Investigação do acidente continua
O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (NTSB) continua investigando o acidente de domingo e ainda não determinou sua causa.
Os pilotos foram identificados como o comandante Joseph Carroll, de 55 anos, e o primeiro oficial Jaime Felipe Silva Molina, de 37. Ambos ficaram hospitalizados após o acidente, mas já receberam alta.
As cinco vítimas estavam em uma van de uma empresa de limpeza de aeronaves que foi atingida pelo Boeing 767.
Dados de rastreamento do voo analisados pela CBS News mostram que, a cerca de 6,4 quilômetros da pista, o avião teria nivelado repentinamente e interrompido a descida por aproximadamente 25 segundos. Depois, a aeronave teria iniciado uma descida acentuada, com uma velocidade aproximadamente duas vezes maior que a considerada normal.
Especialistas afirmam que os dados do gravador de voz da cabine e os registros de eventuais falhas mecânicas poderão ajudar a esclarecer o que aconteceu nos momentos finais do voo.
Até agora, não há indicação de que as antigas denúncias de segurança tenham relação com o acidente de Miami. A investigação oficial ainda está em andamento

Fonte: CBS