Eleições na Flórida prometem disputa acirrada e podem desafiar domínio republicano no estado

Após quase três décadas de controle republicano do governo estadual, democratas chegam às urnas com chances de disputar cargos importantes. Pesquisas e dados da votação antecipada indicam uma eleição mais equilibrada do que o esperado.

Por Lara Barth

A previsão é que o total nacional de votos populares seja divulgado somente no início de dezembro

A Flórida, tradicional reduto republicano nos últimos anos, pode enfrentar uma das eleições mais disputadas desde 2018. As eleições de meio de mandato desta terça-feira (3) colocam em jogo o governo estadual, uma vaga no Senado e cadeiras da Câmara dos Representantes. Pesquisas e dados sobre votação antecipada indicam que os democratas podem representar um desafio maior do que o previsto para o Partido Republicano.
Durante um comício em Brooksville, o diretor financeiro da Flórida e ex-presidente do Partido Republicano no estado, Blaise Ingoglia, alertou apoiadores sobre o avanço democrata. “Não há nada que a esquerda queira mais do que tornar este estado azul. E, se a Flórida mudar, o país inteiro muda”, afirmou.
O alerta reflete a preocupação de republicanos com a participação de seus eleitores. O partido controla o governo estadual há quase 30 anos, tem supermaioria na Assembleia Legislativa e ocupa os dois assentos da Flórida no Senado federal. O presidente Donald Trump também venceu no estado nas três últimas eleições presidenciais.
Apesar desse histórico, algumas disputas estão mais equilibradas. Na corrida pelo governo, o republicano Byron Donalds, deputado federal, enfrenta o democrata David Jolly, ex-deputado. Mesmo tendo investido muito mais dinheiro na campanha, Donalds aparece em uma disputa apertada com o adversário.
Na eleição para o Senado, a republicana Ashley Moody, ex-procuradora-geral do estado e nomeada para substituir Marco Rubio, tem uma vantagem maior sobre a democrata Angie Nixon, deputada estadual. Ainda assim, pesquisas apontam uma disputa mais acirrada do que o esperado.
Republicanos demonstram preocupação com participação nas urnas
A preocupação com a mobilização dos eleitores levou até o governador Ron DeSantis a criticar os números da votação antecipada em Polk County, região tradicionalmente republicana ao longo do corredor da Interstate 4.
Em um evento em Crystal River, DeSantis afirmou que a participação dos republicanos estava abaixo do que havia observado em sua campanha de reeleição, quatro anos antes. “Os republicanos ainda têm trabalho a fazer. Vocês precisam sair e votar”, disse.
Donald Trump também esteve duas vezes na Flórida nas últimas duas semanas, participando de comícios em áreas de forte apoio republicano. O presidente do Partido Republicano no estado, Evan Power, reconheceu que a presença de Trump ajuda a mobilizar os eleitores.
A presidente do Partido Democrata da Flórida, Nikki Fried, interpretou as visitas como sinal de preocupação dos adversários. Segundo ela, a presença do presidente seria uma tentativa de fortalecer campanhas republicanas que enfrentam dificuldades.
Disputas podem fazer história
Uma eventual vitória de Donalds ou Nixon seria histórica: a Flórida nunca elegeu um governador ou senador negro.
Para os democratas, conquistar cargos estaduais importantes, especialmente o governo, representaria uma mudança significativa depois de anos de derrotas. A Flórida já foi considerada um dos principais estados decisivos das eleições americanas. Em 2000, por exemplo, a disputa presidencial foi definida por uma diferença de apenas 537 votos no estado. Barack Obama também venceu ali duas vezes.
O cenário começou a mudar em 2018, quando DeSantis e Rick Scott venceram seus adversários democratas por margens estreitas. Desde então, os republicanos ampliaram sua vantagem no registro de eleitores e passaram a dominar diferentes disputas estaduais.
Fernand Amandi, assessor sênior da campanha de Jolly, afirmou que uma vitória democrata para o governo representaria uma mudança profunda na política americana. Segundo ele, o resultado poderia recolocar a Flórida no centro das estratégias nacionais do partido.
Custo de vida domina preocupações dos eleitores
A eleição também acontece em um momento de pressão econômica. Preços dos combustíveis, inflação e custo de vida aparecem entre as principais preocupações dos eleitores.
Outro fator é que esta é a primeira eleição de meio de mandato em dez anos sem Trump ou DeSantis diretamente na cédula eleitoral, o que pode influenciar a mobilização dos republicanos.
Os candidatos ao governo apresentam propostas diferentes. Donalds promete manter a orientação conservadora do estado e dar continuidade às políticas implementadas por DeSantis. Jolly, que foi republicano e se tornou democrata no ano passado, afirma que pretende deixar de lado as chamadas “guerras culturais” e priorizar questões econômicas, como o custo de vida.
Na disputa pelo Senado, Moody mantém apoio às políticas de Trump e destaca sua atuação em defesa das forças de segurança. Ela também critica Nixon por sua aproximação com o grupo Democratic Socialists of America, embora a adversária tenha rejeitado algumas de suas propostas, como o corte de recursos para a polícia.
Nixon, por sua vez, tenta mobilizar jovens e eleitores progressistas. Sua campanha defende a tributação de bilionários, a ampliação do acesso à saúde por meio de um sistema público e a oferta universal de creches. A democrata também acusa Moody de apoiar excessivamente Trump e DeSantis e questiona sua atuação em um caso envolvendo recursos de um acordo do Medicaid que acabaram destinados a um comitê político ligado a um aliado do governador.
O resultado das eleições poderá indicar se o domínio republicano na Flórida continua consolidado ou se os democratas conseguirão recuperar espaço no estado.
Para o analista de dados democrata Matthew Isbell, a grande incógnita é o comportamento dos eleitores no dia da votação. Segundo ele, o resultado poderá revelar tanto uma dificuldade de mobilização republicana quanto uma participação expressiva do partido nas urnas, capaz de superar as expectativas apontadas pelos dados da votação antecipada.

Fonte: POLITICO