Flock anuncia novas regras de segurança após denúncias de abuso por policiais

Empresa responsável por câmeras que rastreiam placas de veículos reduz prazo de armazenamento e cria novos mecanismos de controle após casos de perseguição e uso indevido

Por Lara Barth

Câmeras irão detectar motoristas que ultrapassarem limite de velocidade

A Flock Safety, empresa americana de tecnologia de vigilância que opera câmeras equipadas com inteligência artificial para identificar e registrar placas de veículos, anunciou novas medidas de segurança após uma série de denúncias de uso abusivo do sistema por agentes de segurança pública e o aumento das críticas ao monitoramento em massa.

Entre as principais mudanças está a exigência de que toda busca realizada por policiais seja vinculada a um número de caso criminal. A empresa também passará a analisar automaticamente atividades consideradas anormais, podendo bloquear preventivamente usuários que apresentem comportamentos suspeitos.

Outra mudança significativa será a redução do período padrão de armazenamento dos dados: de 30 para sete dias.

Cidades poderão limitar acesso de outras polícias

A Flock possui cerca de 120 mil câmeras instaladas nos Estados Unidos. Os dados coletados podem ser compartilhados entre diferentes departamentos de polícia, mas o novo sistema permitirá que cada cidade determine quais tipos de ocorrência poderão justificar o acesso de outras autoridades às suas câmeras.

Segundo o CEO da empresa, Garrett Langley, uma cidade poderá, por exemplo, permitir que outra autoridade consulte seus registros apenas em casos de veículos roubados, pessoas desaparecidas ou crimes violentos, enquanto bloqueia pesquisas relacionadas à fiscalização migratória.

“Essas mudanças refletem anos de trabalho e reflexão. Elas não representam o fim desse processo, mas a continuidade do nosso compromisso com segurança e privacidade”, afirmou Langley.

Pelo menos 50 policiais foram acusados de abusar do sistema

A pressão sobre a empresa aumentou após investigações revelarem casos em que agentes teriam utilizado leitores automáticos de placas para vigiar secretamente namoradas, ex-companheiras e outras pessoas.

O Washington Post informou recentemente que pelo menos 50 policiais foram acusados, denunciados ou condenados por utilizar sistemas da Flock e outras tecnologias de leitura de placas para fins indevidos. Após a publicação da investigação, o jornal identificou mais de uma dezena de casos adicionais.

A própria Flock afirma que uma ferramenta chamada Audit Assistance, lançada há cerca de quatro meses, já ajudou a identificar atividades anormais e esteve relacionada a prisões de policiais suspeitos de abusar do sistema.

A ferramenta era utilizada por aproximadamente um terço dos clientes da empresa e deverá se tornar obrigatória até o fim do ano.

Especialistas dizem que as mudanças ainda são insuficientes

Organizações de defesa das liberdades civis, porém, consideram que as novas regras não resolvem os principais riscos associados à tecnologia.

Tom Bowman, do Center for Democracy & Technology, afirmou que, apesar de algumas melhorias, a empresa continua dependendo dos próprios departamentos de polícia para fiscalizar o uso do sistema.

“Flock ainda está pedindo que milhares de departamentos de polícia fiscalizem a si mesmos, apesar das evidências de todo o país de que essa falta de proteção é insegura”, afirmou.

Entre as preocupações estão o rastreamento constante de veículos, abordagens policiais baseadas em alertas considerados equivocados pela inteligência artificial e casos de perseguição pessoal.

Para Bowman, uma proteção mais efetiva exigiria que o governo obtivesse mandado judicial antes de realizar determinadas buscas.

Tecnologia pode reconstruir os deslocamentos de uma pessoa

Os sistemas de leitura automática de placas, conhecidos como ALPRs, são apresentados pelas empresas como ferramentas para localizar veículos roubados, encontrar pessoas desaparecidas e auxiliar investigações.

Críticos, entretanto, afirmam que a tecnologia permite criar enormes bancos de dados capazes de reconstruir onde um veículo esteve, quando passou por determinado local e com que frequência, mesmo quando não há suspeita de crime.

O Institute for Justice, organização jurídica que lançou recentemente uma base de dados sobre abusos envolvendo ALPRs, afirma ter identificado mais de 100 casos de uso indevido, incluindo perseguição, abordagens e detenções equivocadas e utilização da tecnologia para finalidades não relacionadas à aplicação da lei.

Empresa também admite falha de segurança

A Flock revelou ainda que corrigiu uma vulnerabilidade descoberta em dezembro de 2025 em algumas de suas câmeras PTZ equipadas com inteligência artificial.

Durante um curto período, terceiros conseguiram acessar transmissões ao vivo e imagens de determinadas câmeras. Segundo Langley, o problema foi causado por uma configuração de rede realizada por um fornecedor.

Casos recentes também mostram a dimensão das preocupações. Na Carolina do Norte, uma policial foi presa neste mês sob acusação de usar leitores de placas da Flock para rastrear a ex-mulher de seu namorado. Em Savannah, na Geórgia, seis funcionários do departamento de polícia foram demitidos em agosto por suposto uso indevido das câmeras.

Com a expansão dos sistemas de vigilância automatizada nos Estados Unidos, a disputa agora envolve uma questão central: até onde a tecnologia pode ser usada para aumentar a segurança pública sem transformar os deslocamentos cotidianos de milhões de pessoas em um banco de dados permanente de vigilância?

Fonte: ABC