Passeata Carnavalesca? #Fora quem?
Não vou falar de política, mas vou falar de história do Brasil.
Sou contra a ditadura e a corrupção, mas como o cinismo no Brasil existe desde os tempos da Monarquia e da Chibata, não foi à toa que Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional em 1930. Na época, acho que ninguém aguentava mais os corruptos da República Café com Leite no executivo e no legislativo. Getúlio e Dutra não foram perfeitos, trouxeram muitos avanços e caíram nos anos 1950 pressionados pelos inimigos que gritavam Fora Getúlio, a década de 1950 foi marcada por crises e atentados...
Em 1956, Juscelino acalmaria os ânimos até aparecer o maluco do Jânio que renunciou e expôs Jango (que tinha apenas 2 anos e alguns meses de mandato acusado de ser comunista mesmo sendo apenas um populista trabalhista) a uma crise política e econômica com toda a igreja, jornais e mal informados gritando Fora Jango! Jango saiu, e não saiu sozinho, saiu Ulysses, Brizola, Tancredo Neves (que tinha sido primeiro-ministro), artistas, professores, comunistas e não comunistas num processo de burra polarização que gerou a ditadura, a morte e o exílio de muitos.
A ditadura trouxe o milagre econômico, a transamazônica (cujos valores nunca foram investigados), a censura prévia e o silêncio nas ruas e universidades, a ditadura geraria a crise na educação, a disseminação da violência nas periferias que começou a estourar nos anos 1980, a ditadura escondeu a corrupção de seus próprios políticos-militares (cujos valores nunca foram investigados).
Desde 1985, somos democráticos, porém fomos enganados por um presidente que foi derrubado pelos “caras-pintadas” em 1992, mas nunca foi preso. Fizeram um arranjo nos anos 1990, trouxemos o fusquinha de volta, ganhamos a Copa de 94, veio o Plano Real patrocinado pelo FMI durante 8 anos, depois elegemos um operário que reforçou a economia, baniu o FMI, trouxe programas sociais, realização da Copa, Olimpíadas, mas não conseguiu colocar o Brasil num processo de revisão de suas estruturas tributárias, jurídicas e de formação educacional. Enquanto o brasileiro se importar somente com as aparências, nossos protestos serão carnavalescos, nossos votos serão desviados e nossos direitos desrespeitados.
Protesto verdadeiro é aquele que, no dia seguinte, melhora o hospital de seu bairro, que limpa a sua rua, que inaugura uma escola e que, fundamentalmente, ensina o brasileiro a pensar, a refletir que, se não existe bons políticos, ele mesmo precisa ser mais político e não expectador de passeatas. Segundo Bauman, em seus estudos, sem referências e escolhas reais, nada tem sentido.
Passeatas carnavalescas é alvo de estudos sociológicos atuais, como Bauman comenta:
" As pessoas compartilham reações emotivas nas redes sociais e às vezes organizam-se, a partir dali, para ir às ruas e protestar. Gritam todas os mesmos slogans, mas na verdade têm interesses diversos e expectativas difusas. Depois, voltam para casa contentes pela fraternidade com os demais que se criou, mas é uma solidariedade falsa. Chamo-a de “solidariedade carnaval”, porque me lembra aqueles eventos nos quais, por quatro ou cinco dias, coloca-se a máscara, canta-se e dança-se junto, fugindo por um tempo limitado da ordem das coisas. Estes protestos permitem a explosão coletiva de problemas diversos, e de demandas individuais, por um lapso breve de tempo, como no carnaval – mas a raiva não se transforma em mudança compartilhada."
Segundo outro sociólogo, Manuel Castells, seja na internet ou na rua, o verdadeiro movimento surge a partir de uma “centelha” , encorpada a partir de uma dor individual ou coletiva que leva milhares de pessoas a se reconhecerem sob a mesma luta nas redes sociais e nas comunidades virtuais e físicas.
Mas, podemos analisar que, quando o conteúdo da passeata é frágil, mesma que ela seja gigante, basta surgir um espertalhão como falso novo líder para "sequestrar o movimento" ,se eleger e enganar o país de outra forma.
Em certas situações, belicistas combatem as guerras com lindos discursos pela paz e no final, quando ocupam o poder iniciam novas guerras ou perseguições. Muitas vezes, o político que convoca uma passeata contra a corrupção pode ser tão corrupto quanto os acusados de corrupção no poder. Todos nós queremos mudanças, reformas e um Brasil mais justo, mas isso não será possível se o movimento é patrocinado e artificializado com o contexto do mais dos mesmos contra todos e a favor de nenhum de nós.
Raciocinem antes de protestar...
Fernando Rebouças é publicitário, jornalista, especialista em Produção Editorial, desenhista e editor independente.