Para muitos brasileiros que vivem nos Estados Unidos, o obstáculo para ingressar em uma universidade americana não é a falta de experiência ou de formação, mas a insegurança com o inglês acadêmico. Dados de 2024 ajudam a dimensionar essa barreira: 40% dos imigrantes brasileiros com 5 anos ou mais disseram falar inglês menos do que "muito bem", segundo análise do Migration Policy Institute baseada na American Community Survey, do U.S. Census Bureau.
O mesmo levantamento mostra uma aparente contradição: 48% dos imigrantes brasileiros adultos já possuem bacharelado ou formação superior, índice acima do registrado tanto entre os imigrantes em geral quanto entre os nascidos nos Estados Unidos. Os números não indicam diretamente quantas pessoas deixaram de estudar por causa do idioma, mas revelam uma comunidade com alto nível de escolaridade e, ao mesmo tempo, uma barreira linguística relevante.
É nesse espaço que começa a crescer a oferta de programas americanos pensados para alunos que dominam o conteúdo profissional, mas ainda não se sentem preparados para cursar uma graduação inteiramente em inglês.
Brasileiros formam o maior grupo latino-americano nas universidades dos EUA
Os Estados Unidos receberam 1.177.766 estudantes internacionais no ano acadêmico de 2024/2025, alta de 5% em relação ao período anterior. Eles representaram 6% de todos os alunos do ensino superior do país, de acordo com o relatório Open Doors 2025, produzido pelo Institute of International Education com apoio do Departamento de Estado.
Entre eles estavam aproximadamente 17.300 brasileiros — o maior contingente da América Latina, à frente de México e Colômbia. Administração e negócios também permanecem entre as áreas mais procuradas: 14% dos estudantes internacionais escolheram cursos de business and management no mesmo período.
O interesse por uma formação universitária encontra respaldo nos indicadores do mercado de trabalho. Em 2025, trabalhadores americanos com 25 anos ou mais e apenas o ensino médio completo receberam mediana de US$ 966 por semana. Entre aqueles com bacharelado, o valor foi de US$ 1.578; para quem possuía mestrado, chegou a US$ 1.876, segundo o Bureau of Labor Statistics.
Os dados são médias nacionais e não representam promessa de salário ou emprego. Remuneração e oportunidades variam conforme profissão, experiência, região, setor e situação migratória, mas os números mostram a relação histórica entre maior escolaridade, renda mais alta e menor desemprego.
Formação americana sem prova de proficiência em inglês
Uma das iniciativas voltadas a esse público é a parceria entre a Campbellsville University, universidade privada fundada em 1906 no Kentucky, e a Langford Education, com sede em Orlando. A própria universidade identifica a Langford como parceira acadêmica oficial para seus programas em português.
O modelo oferece duas opções na área de negócios:
* Bachelor of Science in Business Administration (bacharelado): formação em administração com disciplinas de finanças, marketing, contabilidade, economia, ética empresarial, recursos humanos e liderança;
* Master of Business Administration — MBA (mestrado): programa voltado ao desenvolvimento de competências em estratégia, gestão, tomada de decisões e liderança.
As aulas são ministradas em português, sem exigência de TOEFL, IELTS ou Duolingo English Test para a admissão nessa modalidade. O formato é híbrido, com atividades online e uma imersão presencial por semestre nos Estados Unidos.
Segundo as instituições, o diploma e o histórico escolar são emitidos diretamente pela Campbellsville University. Portanto, não se trata de um certificado concedido pela empresa parceira, mas de uma formação acadêmica da universidade americana. A modalidade em português funciona como caminho de acesso ao currículo, sem criar uma categoria separada de diploma.
O diferencial está em uma combinação ainda pouco comum no mercado: conteúdo acadêmico em português, suporte bilíngue, experiência presencial nos Estados Unidos e formação concedida por uma universidade americana. Para adultos que já trabalham, têm família ou estão há anos afastados da sala de aula, estudar inicialmente no idioma nativo também pode reduzir a insegurança e facilitar a compreensão de conteúdos técnicos.
Isso não significa, porém, que o inglês deixe de ser importante. A fluência continua sendo um ativo relevante para networking, crescimento profissional e integração ao mercado americano. A proposta do programa é retirar o idioma como barreira de entrada acadêmica, e não substituir o aprendizado do inglês ao longo da trajetória profissional.
I-20 e visto F-1: qual é a diferença?
A Campbellsville University aparece no sistema do Departamento de Segurança Interna como instituição certificada pelo Student and Exchange Visitor Program (SEVP) para receber estudantes internacionais. Depois da admissão e da apresentação dos documentos acadêmicos e financeiros exigidos, a universidade pode emitir o Form I-20.
O I-20 é o certificado de elegibilidade usado como base para solicitar o visto de estudante F-1. Ele, sozinho, não é um visto e não garante aprovação consular, mudança de status ou entrada nos Estados Unidos. A emissão do visto cabe ao Departamento de Estado; pedidos de mudança de status dentro do país são decididos pelo USCIS; e a admissão na fronteira é determinada pela U.S. Customs and Border Protection.
O aluno F-1 também precisa manter carga acadêmica integral, presença obrigatória e todas as demais condições do programa e do status migratório.
CPT não é autorização automática para qualquer emprego
Outro ponto de interesse é o Curricular Practical Training (CPT), modalidade de treinamento profissional vinculada ao currículo acadêmico. No bacharelado oferecido pela parceria, a possibilidade de CPT começa a partir do terceiro semestre, quando o estudante se torna elegível. No MBA, o componente prático integra o currículo desde o início, modelo conhecido como Day 1 CPT, também sujeito à elegibilidade individual.
Pelas regras federais, o trabalho precisa estar diretamente relacionado à área de estudo e ser parte integrante do currículo. A autorização deve ser concedida antes do início da atividade por um Designated School Official (DSO), registrada no SEVIS e indicada no Form I-20 com empregador, local e datas específicos.
Assim, "Day 1 CPT" não significa permissão automática para trabalhar em qualquer função desde o primeiro dia de aula. Significa que um programa de pós-graduação pode prever participação prática imediata no currículo, desde que o aluno, a atividade e a documentação atendam às regras aplicáveis.
Há ainda um cuidado importante: o estudante que acumula 12 meses ou mais de CPT em período integral perde a elegibilidade ao OPT pós-conclusão naquele nível educacional. Por isso, carga horária e estratégia acadêmico-profissional devem ser avaliadas antes de cada autorização.
Social Security Number após a autorização de trabalho
O aluno internacional não recebe um Social Security Number apenas por se matricular ou obter o I-20. De acordo com a Social Security Administration, o SSN pode ser solicitado quando existe autorização válida de trabalho.
No caso do CPT, o estudante deve apresentar, entre outros documentos, o Form I-20 com a página de emprego preenchida e assinada pelo representante autorizado da universidade. O SSN é, portanto, uma consequência da elegibilidade para trabalhar — não um benefício migratório independente.
Acreditação reafirmada por dez anos
Em fevereiro de 2025, a Campbellsville University anunciou que sua acreditação institucional havia sido reafirmada por dez anos pela Southern Association of Colleges and Schools Commission on Colleges (SACSCOC). Segundo a universidade, a revisão confirmou o cumprimento de todos os padrões e não identificou áreas de preocupação, após análise de programas acadêmicos, serviços aos estudantes, governança e finanças.
A SACSCOC é uma acreditadora acadêmica reconhecida e avalia a qualidade e a conformidade institucional. Sua função, no entanto, é diferente da certificação SEVP, ligada ao governo federal e necessária para a emissão do I-20. Não existe uma classificação oficial chamada "padrão ouro na imigração". O dado correto — e relevante — é que a Campbellsville reúne acreditação acadêmica reafirmada e certificação federal para receber alunos F-1.
Uma particularidade do sistema americano é que a acreditação institucional da SACSCOC alcança os diferentes níveis de diploma, locais e modalidades de ensino da universidade. Isso ajuda a explicar por que um curso híbrido ou oferecido por meio de uma parceria acadêmica continua submetido aos padrões institucionais da universidade que concede o diploma.

