Uma receita simples, feita com poucos ingredientes e carregada de memória afetiva. Foi assim que uma das mais tradicionais guloseimas brasileiras ganhou uma nova história nos Estados Unidos.
Aos 39 anos, o paulistano Renato Raposo é fundador da OCA Foods, empresa de snacks inspirados na paçoca brasileira. Morando em Austin, no Texas, há nove anos, ele transformou uma lembrança do pai em um negócio que hoje busca conquistar espaço na rotina dos consumidores americanos.
A ideia surgiu depois de um momento decisivo em sua vida. Contador de formação e com carreira construída nas áreas financeira e de estratégia, Renato percebeu que estava seguindo caminhos profissionais que já não representavam aquilo que queria para a própria vida.
A mudança ganhou ainda mais força após a morte do pai, em abril de 2022. Segundo Renato, ele era seu maior incentivador e uma das pessoas que mais acreditavam em seu potencial. A paçoca, por sua vez, era o doce favorito do pai.
"Decidi que queria vencer por mim, mas também por ele. A ideia de criar a OCA tem relação direta com ele: a paçoca era o doce favorito dele", conta.
Mais do que criar uma empresa, Renato encontrou na OCA uma maneira de manter viva essa memória e, ao mesmo tempo, apresentar um pedaço da cultura brasileira ao público americano.
Da memória brasileira ao mercado americano
O desafio, porém, era transformar um produto tradicional do Brasil em algo que fizesse sentido para consumidores nos Estados Unidos.
Para Renato, a resposta estava justamente na adaptação. A OCA mantém a inspiração na paçoca, mas busca conversar com os hábitos e referências do consumidor americano.
"A gente sempre tenta misturar inovação com nostalgia. Pasta de amendoim é algo nostálgico para o americano, e a paçoca é a versão sólida disso", explica.
A marca aposta em produtos com poucos ingredientes, sem conservantes, pouco doces e pensados para serem funcionais. A estratégia também envolve criar novas interpretações da receita tradicional, utilizando ingredientes diferenciados e mantendo a essência do produto.
Para o empreendedor, adaptar a experiência ao mercado local é fundamental para qualquer brasileiro que queira levar um produto para os Estados Unidos.
"Se você quer trazer um produto de fora pra cá, precisa adaptá-lo ao mercado e ao consumidor americano. Adaptar mais de 300 milhões de pessoas a um produto me parece um pouco mais difícil do que adaptar um produto a mais de 300 milhões de pessoas", afirma.
Quando restavam apenas US$ 500
O caminho até o reconhecimento, entretanto, esteve longe de ser fácil.
Uma semana antes de a OCA conquistar o prêmio de melhor produto do Texas, em 2026, a empresa tinha apenas US$ 500 em caixa.
As contas estavam chegando, os recursos eram limitados e Renato sabia que, caso o prêmio não viesse, seria necessário encontrar rapidamente outra saída para manter o negócio funcionando.
A premiação mudou o cenário.
A OCA recebeu US$ 50 mil em dinheiro e conquistou espaço em uma das maiores redes de supermercados do Texas.
"Se não ganhássemos o prêmio, íamos ter que ser criativos ou desistir. No fim das contas, ganhamos!", relembra.
O reconhecimento não foi um caso isolado. A empresa também havia conquistado o prêmio de melhor produto do Texas no ano anterior, em 2025. Foram duas premiações em um intervalo de apenas oito meses, uma validação importante para Renato e sua equipe seguirem investindo no projeto.
Empreender também é levar um pedaço do Brasil
Apesar do foco no consumidor americano, a OCA carrega uma identidade brasileira em sua origem e em sua proposta.
Renato acredita que a empresa contribui para a comunidade não apenas por meio da geração de empregos, mas também ao apresentar aos americanos novos sabores e elementos da cultura brasileira.
A inspiração vem de uma lembrança simples da própria infância: momentos ao lado do pai, comendo paçoca em frente à televisão enquanto assistiam aos jogos do Corinthians ou a filmes de faroeste — muitos deles ambientados justamente no Texas, estado onde Renato vive hoje.
É essa conexão entre passado e presente que ele pretende levar para a marca.
"A gente quer fazer parte dos momentos mais simples e especiais da vida das pessoas, assim como eram os meus momentos com meu pai", afirma.
Um propósito que vai além do faturamento
Para Renato, o sucesso da OCA não é medido apenas pelo crescimento das vendas.
O empreendedor afirma que sua principal métrica é a quantidade de pessoas que a empresa consegue impactar por meio dos produtos.
Essa visão também está relacionada à própria trajetória. Filho de uma família simples e criado em escola pública, Renato vê na própria história uma oportunidade de inspirar outras pessoas a acreditarem em seus projetos.
"Eu sou cria de escola pública, de família simples e de amigos verdadeiros, e isso é a minha maior riqueza."
A esposa, Ericka, também ocupa um papel importante nessa jornada. Ela deixou o trabalho em uma empresa de tecnologia para ajudá-lo na OCA quando o empreendedor percebeu que já não conseguia conduzir sozinho todas as demandas do negócio.
"Sem ela, eu jamais teria conseguido", reconhece.
Agora, o objetivo é ainda maior: fazer com que os produtos da OCA se tornem parte da rotina dos americanos.
Renato também mantém um sonho pessoal: proporcionar uma vida melhor para a mãe, que, segundo ele, ajudou a realizar quase todos os seus sonhos.
O próximo passo
Depois de transformar a memória do pai em uma empresa reconhecida no Texas, Renato quer ampliar o alcance da marca e continuar desenvolvendo produtos que unam inovação e nostalgia.
A missão da OCA resume essa proposta: criar produtos sem conservantes, que alimentem e conectem pessoas.
Para outros brasileiros que pensam em empreender fora do país, ele aconselha estudar profundamente o mercado antes de dar o passo, entender os hábitos dos consumidores e conhecer os custos envolvidos na operação.
Mas, acima de qualquer estratégia empresarial, Renato defende algo que considera essencial: acreditar.
"Nunca vai ser fácil, mas você já é um vencedor por ter dado o primeiro passo. Não deixe que ninguém coloque um teto nos seus sonhos e nunca, absolutamente nunca, deixe de acreditar que você é capaz."
A história da OCA começou com uma lembrança de família. Hoje, a paçoca que fazia parte dos momentos de Renato com o pai ganhou uma nova vida no Texas — e pode estar a caminho de conquistar um lugar à mesa de milhares de consumidores americanos.
Para o empreendedor, a ponte entre o sonho e a realidade continua sendo a mesma: ter coragem para atravessá-la.

