O crescimento do basquete nos Emirados Árabes Unidos não aconteceu de um dia para o outro. Mas, olhando para os últimos anos, dá para dizer que algumas peças começaram a se encaixar com uma velocidade impressionante.
Primeiro veio a vitrine internacional. Depois, a estrutura. Em seguida, a base começou a crescer. E agora, com o sucesso do Dubai Basketball, o país parece viver uma nova fase: a de transformar entusiasmo em ecossistema.
Durante muito tempo, falar de esporte de base nos Emirados era falar quase automaticamente de futebol. E isso continua sendo verdade em muitos aspectos. O futebol segue enorme, presente nas escolas, nas academias e no imaginário das famílias. Ainda mais em um ano marcado pela Copa do Mundo, quando o esporte naturalmente domina conversas, telas e campos.
Mas o ponto mais interessante é justamente este: o basquete não está crescendo contra o futebol. Está crescendo ao lado dele.
E isso talvez seja o sinal mais saudável de todos.
A primeira grande virada veio de Abu Dhabi
Antes de Dubai Basketball virar um símbolo, Abu Dhabi já havia colocado o basquete internacional no centro do palco.
Em outubro de 2022, a capital dos Emirados recebeu os primeiros jogos da NBA no país, como parte de uma parceria plurianual entre a liga norte-americana e o Department of Culture and Tourism – Abu Dhabi. O primeiro jogo, no dia 6 de outubro, colocou frente a frente Atlanta Hawks e Milwaukee Bucks no Etihad Arena, em Yas Island.
Para muitos fãs locais, aquilo foi mais do que um evento. Foi a primeira vez que a experiência NBA, com sua energia, produção, atletas e linguagem global, apareceu fisicamente nos Emirados.
Esse tipo de momento importa. Grandes jogos não formam atletas sozinhos, mas mudam percepção. Uma criança que vê de perto uma partida da NBA passa a entender o basquete de outra forma. Um pai que leva o filho ao ginásio começa a enxergar o esporte com outro peso. Uma cidade que recebe esse tipo de evento começa a se posicionar dentro do mapa global da modalidade.
Abu Dhabi abriu essa porta. Dubai, hoje, parece estar acelerando o caminho.
Dubai Basketball mudou a conversa
O Dubai Basketball não representa apenas um time profissional. Representa uma nova ambição.
Quando um clube dos Emirados passa a competir em ligas internacionais de alto nível, disputar contra marcas tradicionais do basquete europeu e conquistar resultados expressivos em tão pouco tempo, o impacto ultrapassa a quadra principal. Ele chega às academias, às escolas, aos treinadores e às famílias.
O sucesso esportivo e organizacional do Dubai Basketball ajudou a mudar a pergunta.
Antes, muita gente perguntava: “Existe basquete forte nos Emirados?”
Agora, a pergunta começa a ser outra: “Até onde esse projeto pode ir?”
E quando um projeto muda a pergunta, ele já mudou parte do mercado.
Hoje, já circulam rumores e reportagens sobre outras iniciativas no Oriente Médio observando esse modelo. Há relatos sobre um possível projeto baseado em Abu Dhabi mirando, no futuro, um caminho dentro do ecossistema da ABA League e da EuroLeague. Também existem rumores de interesse vindo da Arábia Saudita, com clubes ou investidores avaliando caminhos parecidos.
Nada disso deve ser tratado como fato consumado. Mas o simples fato de essas conversas existirem mostra que o Dubai Basketball criou algo maior do que um time. Criou uma referência regional.
Quando o topo puxa a base
No esporte, a pirâmide precisa funcionar dos dois lados.
A base sustenta o topo. Mas o topo também inspira a base.
Quando uma criança vê um time local competindo em alto nível, o esporte ganha proximidade. Não é mais apenas NBA na televisão, EuroLeague distante ou highlights no celular. Existe um clube na cidade. Existe jogo. Existe camisa. Existe pertencimento.
Esse é um detalhe poderoso.
Quem acompanha o ambiente das academias percebe que o basquete nos Emirados já não é tratado apenas como uma atividade extra para ocupar algumas horas da semana. Em muitos casos, ele começa a ser visto como projeto esportivo sério, com treino, calendário, competição e evolução.
E esse é o ponto de virada.
A força da Dubai Basketball Academy
Dentro desse movimento, a Dubai Basketball Academy tem um papel importante.
Tenho visto esse ambiente de perto, e o que chama atenção não é apenas o número de crianças treinando. É a sensação de estrutura. Existe método, organização, identidade e um padrão de trabalho que dá confiança às famílias.
Isso é fundamental. Porque esporte de base não se constrói só com talento. Constrói-se com rotina, ambiente, bons treinadores, competições adequadas e uma cultura que valorize desenvolvimento.
A academia já se tornou uma das referências do país justamente porque parece conectada com algo maior. Ela não funciona como uma ilha. Ela faz parte de um momento em que o basquete está ganhando corpo nos Emirados, desde a iniciação até o alto rendimento.
E quando uma academia consegue conectar criança, família, competição e referência profissional, ela deixa de ser apenas um centro de treinamento. Passa a ser parte de uma cultura esportiva.
Torneios mostram que o crescimento é real
O avanço do basquete também aparece onde ele precisa aparecer: nas competições.
O Dubai Open Basketball Academies Championship de 2026 reuniu quase dois mil jogadores, mais de cem equipes e duas dezenas de academias. Isso é um sinal muito forte de massa crítica. Não estamos falando de um esporte tentando sobreviver em pequenos grupos isolados. Estamos falando de um calendário que já mobiliza atletas, técnicos, árbitros, pais, escolas e comunidades.
Abu Dhabi também tem mostrado força na base, especialmente com iniciativas escolares e programas ligados à NBA. A Jr. NBA Abu Dhabi League cresceu de forma expressiva, envolvendo milhares de meninos e meninas, dezenas de escolas e uma estrutura que ajuda a levar o jogo para um público cada vez mais amplo.
E há ainda o lado comunitário, que muitas vezes passa despercebido, mas é essencial.
No meu caso, por exemplo, eu jogo na Ball Above All. E estar dentro desse ambiente ajuda a enxergar como o basquete está vivo em diferentes camadas. Está vivo nas academias, nas ligas abertas, nas escolas, nos torneios independentes e nos projetos apoiados por entidades esportivas. O Open Cup, com apoio importante no cenário esportivo local, também faz parte dessa construção.
Esse conjunto é o que transforma modalidade em ecossistema.
O basquete cresce porque encontrou seu espaço
O mais interessante é que o basquete nos Emirados não precisa copiar o futebol para crescer. Ele tem outra linguagem.
É um esporte rápido, urbano, técnico, visual, multicultural e muito fácil de ser abraçado por comunidades internacionais. Em um país como os Emirados, onde convivem famílias de dezenas de nacionalidades, isso faz diferença.
O basquete conversa bem com esse ambiente. Ele cabe na escola, no clube, no condomínio, no ginásio, no torneio de fim de semana e no grande evento internacional. Ele permite participação feminina e masculina em escala. Ele conecta crianças pequenas, adolescentes, adultos amadores e atletas de elite dentro de uma mesma cultura.
Talvez por isso o crescimento pareça tão natural.
Não é uma explosão artificial. É um acúmulo.
NBA em Abu Dhabi. Dubai Basketball no alto rendimento. Academias crescendo. Torneios ganhando volume. Escolas participando mais. Comunidades jogando. Famílias enxergando valor.
Quando essas peças se juntam, o esporte muda de patamar.
O próximo desafio: transformar momento em legado
Todo crescimento esportivo passa por um teste.
O primeiro teste é criar entusiasmo. Esse, o basquete nos Emirados já passou.
O segundo é criar permanência. E esse é o desafio que começa agora.
Para que o basquete continue crescendo, será preciso formar mais treinadores, ampliar competições por faixa etária, fortalecer ligas escolares, apoiar projetos femininos, criar caminhos claros para atletas de talento e manter a qualidade das academias. Também será importante equilibrar ambição com formação. Nem toda criança vai virar profissional. Mas toda criança pode sair melhor do esporte se o ambiente for bem construído.
Essa talvez seja a maior oportunidade.
Os Emirados têm infraestrutura, segurança, diversidade, investimento e apetite por grandes projetos. O basquete tem energia, estética, apelo global e uma nova geração pronta para jogar.
Dubai é hoje o motor mais visível desse movimento. Abu Dhabi foi decisiva ao trazer a NBA. E a região inteira parece observar com atenção o que pode vir depois.
O futuro ainda não está definido. Mas uma coisa já parece clara: o basquete nos Emirados deixou de ser apenas promessa.
Ele já está em quadra.
