Nos dias 18 e 19 de setembro, quatro dos nomes mais fortes do basquete europeu estarão dentro da Etihad Arena, em Abu Dhabi.
Olympiacos, atual campeão da EuroLeague. Fenerbahce, campeão em 2025. Real Madrid, finalista da última temporada e maior vencedor da competição. E Dubai Basketball, atual campeão da ABA League e representante dos Emirados Árabes Unidos.
Não se trata apenas de mais um torneio de pré-temporada.
Será a primeira edição da EuroLeague Basketball SuperCup, uma competição completamente nova criada para abrir oficialmente a temporada do basquete europeu. E a escolha de Abu Dhabi para receber sua estreia diz muito sobre o momento que o basquete vive nos Emirados.
Na minha leitura, diz ainda mais sobre o que vem pela frente.
Depois de acompanhar o crescimento do esporte neste país desde que cheguei aos Emirados, em 2016, e depois de passar boa parte da minha vida dentro de uma quadra como jogador profissional, minha impressão hoje é muito clara: Dubai já se estabeleceu como o principal hub do basquete de alto nível no Oriente Médio.
Agora Abu Dhabi quer acompanhar esse movimento.
E acredito que a EuroLeague SuperCup é mais um passo nessa direção.
Antes de Dubai, Abu Dhabi abriu a primeira grande porta
É importante colocar essa história na ordem correta.
O movimento internacional do basquete nos Emirados não começou com o Dubai Basketball.
Em 6 de outubro de 2022, a Etihad Arena recebeu Atlanta Hawks e Milwaukee Bucks no primeiro jogo da NBA realizado nos Emirados Árabes Unidos e no Golfo. Dois dias depois, as equipes jogaram novamente.
Foi o início de uma parceria plurianual entre a NBA e o Department of Culture and Tourism de Abu Dhabi.
Naquele primeiro jogo estavam nomes como Giannis Antetokounmpo e Trae Young diante de mais de 11 mil pessoas. Para quem acompanhava basquete na região, aquilo parecia enorme. E era.
Nos anos seguintes, Abu Dhabi continuou trazendo a NBA, transformando outubro em uma espécie de semana internacional do basquete, acompanhada de eventos, ativações, clínicas e programas de desenvolvimento.
Em 2025 veio outro passo importante: pela primeira vez na história, o Final Four da EuroLeague foi realizado fora da Europa. Novamente, o palco escolhido foi Abu Dhabi.
Até aquele momento, a estratégia era relativamente clara: Abu Dhabi trazia os maiores eventos do mundo para cá.
Então Dubai mudou a equação.
Dubai deixou de importar o espetáculo e passou a fazer parte dele
Existe uma diferença enorme entre receber grandes times por alguns dias e construir um time capaz de competir com eles durante uma temporada inteira.
Foi isso que o Dubai Basketball fez.
Em sua primeira temporada na EuroLeague, terminou em 11º lugar, muito perto do Top 10 e do Play-In.
Para um projeto tão jovem entrando diretamente em uma das competições mais difíceis do basquete mundial, o resultado foi muito mais do que respeitável.
E não foi uma campanha construída apenas contra adversários menores.
Dubai venceu o atual campeão Fenerbahce por 92 a 81. Derrubou o Olympiacos por 108 a 98 depois da prorrogação. Menos de 48 horas depois, bateu o Real Madrid por 93 a 85.
Também derrotou Crvena Zvezda por 102 a 86, encerrando naquele momento uma sequência de sete vitórias do time sérvio. Venceu Bayern de Munique fora de casa e também superou Monaco durante a temporada.
Em fevereiro, McKinley Wright IV ainda foi eleito MVP do mês da EuroLeague depois de uma sequência perfeita de resultados.
Isso importa porque elimina uma das dúvidas que existiam quando Dubai entrou na competição.
O projeto não estava ali apenas por investimento.
Conseguia competir.
E depois veio a confirmação definitiva.
Campeão da ABA em apenas dois anos
Em junho, o Dubai Basketball derrotou o Partizan em Belgrado e conquistou a ABA League.
Campeão em sua segunda temporada.
Primeiro clube representando os Emirados a conquistar uma grande liga internacional.
Quando se junta esse título ao desempenho de estreia na EuroLeague, fica difícil chamar o projeto de experiência.
Dubai Basketball já virou referência.
E acredito que o impacto disso vai muito além de Dubai.
Porque no esporte, quando uma cidade demonstra que um modelo funciona, outras começam imediatamente a estudá-lo.
Abu Dhabi não precisa inventar o caminho.
Dubai acabou de mostrar um.
A SuperCup tem também uma lógica de turismo
Existe outro ponto importante nessa discussão.
Esporte de alto nível nos Emirados nunca é apenas esporte.
É turismo. É hotel. É restaurante. É companhia aérea. É entretenimento. É exposição internacional. É gente entrando no país e consumindo a cidade.
O próprio Department of Culture and Tourism de Abu Dhabi deixa isso bastante claro ao explicar a importância da SuperCup para a economia de visitantes, negócios locais e posicionamento internacional do emirado.
E basta olhar para os participantes para entender o potencial.
Real Madrid traz uma das marcas esportivas mais reconhecidas do planeta. Olympiacos e Fenerbahce têm torcidas capazes de viajar milhares de quilômetros por um jogo. Dubai Basketball oferece aquilo que faltava aos eventos anteriores: uma história local.
Não serão apenas quatro clubes europeus chegando a Abu Dhabi.
Um deles vem pela estrada, a pouco mais de uma hora de distância, representando os próprios Emirados.
E isso muda completamente a narrativa.
Na semifinal, inclusive, Dubai Basketball enfrentará justamente o Real Madrid.
É difícil imaginar um cartão de visitas melhor.
E a NBA?
Aqui entra uma interpretação pessoal que provavelmente vai gerar discussão.
Em 2026, pela primeira vez desde 2022, Abu Dhabi não receberá os tradicionais jogos de pré-temporada da NBA.
As informações divulgadas internacionalmente apontam o conflito regional como razão para a pausa. E isso evidentemente precisa ser levado a sério.
Mas acredito que olhar apenas para isso deixa de fora uma mudança maior que está acontecendo.
Em janeiro, NBA e Abu Dhabi haviam acabado de renovar sua parceria de longo prazo. Portanto, a relação continua. A NBA deverá voltar.
Minha leitura não é que Abu Dhabi esteja abandonando a NBA.
É que agora existe outra oportunidade na mesa.
Durante quatro anos, Abu Dhabi trouxe times americanos para criar um espetáculo de alguns dias.
Dubai demonstrou que um clube sediado nos Emirados pode criar engajamento durante uma temporada inteira.
São modelos completamente diferentes.
Um grande NBA Game traz turistas, estrelas e exposição mundial.
Um clube de EuroLeague traz tudo isso repetidamente: jogos em casa, torcedores visitantes, rivalidades, patrocínios, televisão, calendário, comunidade e identidade local.
Esse, para mim, é o grande aprendizado do sucesso de Dubai Basketball.
Abu Dhabi está deixando pistas
E as pistas começam a se acumular.
Abu Dhabi recebeu o primeiro Final Four da EuroLeague realizado fora da Europa.
DCT Abu Dhabi e Etihad Airways assumiram uma parceria de quatro anos como grandes patrocinadores da Euroleague Basketball.
Experience Abu Dhabi passou a aparecer dentro de toda a competição.
Agora chega a primeira SuperCup da história.
E já existem reportagens no mercado europeu sobre um projeto de clube baseado em Abu Dhabi estudando um caminho semelhante ao utilizado pelo Dubai Basketball, inicialmente através da ABA League e depois dentro do ecossistema da EuroLeague.
Quando analisamos tudo isso separadamente, podemos chamar de eventos.
Quando colocamos tudo na mesma linha, começa a parecer estratégia.
Minha previsão: Abu Dhabi terá um time na EuroLeague
Vou me arriscar aqui.
Na minha opinião, dentro de no máximo dois anos estaremos falando sobre um time de Abu Dhabi entrando no caminho da EuroLeague.
Talvez o formato inicial seja ABA League. Talvez passe pela EuroCup. Talvez a própria estrutura das competições europeias mude até lá.
Mas eu acredito que o projeto virá.
Não faria sentido Abu Dhabi investir durante anos em NBA Games, receber o Final Four, tornar DCT e Etihad parceiros centrais da EuroLeague e agora sediar a primeira SuperCup da competição sem avaliar a possibilidade de ter seu próprio representante dentro desse ecossistema.
Especialmente depois de ver, a pouco mais de uma hora de distância, Dubai provar que a fórmula pode funcionar.
E uma futura rivalidade Dubai x Abu Dhabi em nível europeu seria extraordinária para o esporte nos Emirados.
Imagine dois clubes dos UAE recebendo Real Madrid, Barcelona, Olympiacos, Panathinaikos, Fenerbahce e Partizan durante uma temporada.
Imagine depois um Dubai contra Abu Dhabi valendo posição na EuroLeague.
Há poucos anos isso pareceria fantasia.
Hoje, sinceramente, já não parece.
De destino de eventos a potência do basquete
Essa talvez seja a grande transformação acontecendo diante de nós.
Em 2022, os Emirados receberam sua primeira partida da NBA.
Quatro anos depois, têm um campeão da ABA League, um clube competitivo na EuroLeague, uma das academias e estruturas de base que mais crescem na região, um histórico recente de Final Four e agora a estreia mundial de uma nova competição da EuroLeague em Abu Dhabi.
O país deixou de ser apenas um lugar onde o grande basquete vem visitar.
Está começando a fazer parte do grande basquete.
Dubai chegou primeiro nessa nova fase e hoje lidera o movimento.
Abu Dhabi observa, investe e acelera.
E se minha leitura estiver correta, o próximo grande anúncio não será apenas mais um torneio na Etihad Arena.
Será um time de Abu Dhabi entrando em quadra para ficar.
Esportes
A primeira EuroLeague Basketball SuperCup em Abu Dhabi reforça uma mudança que já está em curso: Dubai provou que o basquete europeu funciona nos Emirados, e a capital parece pronta para dar o próximo passo.
