Uma nova análise divulgada nos Estados Unidos alerta que a proposta de reformulação da FEMA — a agência federal responsável pela resposta a desastres naturais — poderá dificultar o acesso à ajuda federal e transferir grande parte dos custos de recuperação para estados, municípios e vítimas.
O relatório foi publicado pelo grupo de defesa “Sabotaging Our Safety” após o Conselho de Revisão da FEMA, criado durante o governo Trump, sugerir mudanças profundas na estrutura da agência.
A proposta prevê transformar a FEMA em uma organização mais enxuta, com atuação limitada, deixando estados e governos locais como principais responsáveis pelas respostas a furacões, enchentes, incêndios e outros desastres naturais.
O debate acontece justamente durante o início da temporada de furacões nos Estados Unidos.
Mudanças podem reduzir número de desastres reconhecidos pelo governo federal
Segundo a análise, uma das principais alterações propostas aumentaria significativamente o limite necessário para que um desastre seja oficialmente reconhecido pelo governo federal.
O chamado “indicador per capita”, usado para calcular se os danos justificam ajuda federal, subiria de US$ 1,94 para US$ 2,99 por habitante.
Na prática, o estudo afirma que:
- quase 29% das declarações federais de desastre entre 2012 e 2025 deixariam de ser aprovadas;
- cerca de 16 desastres por ano perderiam acesso à assistência federal;
- comunidades rurais seriam as mais prejudicadas.
Isso ocorre porque os danos são comparados à população total do estado. Assim, um pequeno condado rural pode sofrer destruição severa sem atingir o limite estadual exigido para receber ajuda federal.
Auxílio para reconstrução também mudaria
Outra proposta criticada envolve o fim do atual modelo de reembolso da FEMA para reconstrução de infraestrutura pública.
Hoje, a agência cobre custos reais de:
- remoção de destroços;
- reparo de estradas;
- reconstrução de hospitais;
- escolas;
- sistemas de água e energia.
Pela nova proposta, chamada RAPID, estados receberiam valores fixos calculados por fórmula baseada em indicadores como velocidade dos ventos e profundidade das enchentes.
O relatório alerta que o sistema pode gerar enormes diferenças entre o valor recebido e o custo real da reconstrução.
“A reconstrução depende de fatores locais como preço de materiais, idade da infraestrutura e exigências de engenharia que a fórmula simplesmente ignora”, diz o estudo.
Além disso, os recursos precisariam ser usados em até oito anos — prazo considerado irreal por especialistas, já que grandes projetos frequentemente levam mais de uma década para serem concluídos.
Seguro contra enchentes pode ficar mais caro
O relatório também aponta que as mudanças podem elevar drasticamente o custo do seguro contra enchentes para famílias de baixa renda.
Segundo a análise:
- áreas mais vulneráveis poderiam registrar aumento de até 279% nos prêmios;
- algumas famílias passariam a pagar mais de US$ 2 mil extras por ano;
- moradores de regiões pobres correm risco de perder cobertura por não conseguirem arcar com os custos.
O estudo destaca ainda que o programa federal de seguro contra enchentes já acumula uma dívida de cerca de US$ 20 bilhões.
Ajuda habitacional de longo prazo pode acabar
Outro ponto controverso é a proposta de retirar da FEMA a responsabilidade por assistência habitacional de longo prazo para famílias desalojadas.
A tarefa passaria para estados, territórios e governos tribais.
Segundo o relatório, a mudança pode tornar permanentes os deslocamentos de famílias de baixa renda, idosos, locatários e pessoas sem seguro residencial.
FEMA enfrenta crise interna em plena temporada de furacões
A discussão sobre a reforma ocorre enquanto a FEMA enfrenta dificuldades operacionais.
Desde janeiro de 2025, a agência perdeu mais de 5 mil funcionários, e quase metade dos principais cargos de liderança está vaga.
Apesar disso, o administrador interino Bob Fenton afirmou que a FEMA está preparada para a temporada de furacões.
Já o Government Accountability Office (GAO) alertou que a agência pode não ter pessoal suficiente caso ocorram desastres consecutivos de grande escala.
Em nota, o Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pela FEMA, afirmou que as mudanças propostas buscam fortalecer a eficiência, a responsabilidade e a capacidade operacional da agência.
Fonte: CBS

