Há 21 anos, quando Barbara Trevizan deixou Curitiba rumo aos Estados Unidos, ela não fazia ideia de que um dia usaria o apito e o boné vermelho de salva-vidas como símbolos de uma trajetória de superação. Sua busca era simples: um trabalho ao ar livre, em um ambiente saudável e ativo. O que ela encontrou, no entanto, mudou completamente os rumos da sua vida.
"Não tenha medo de começar do zero", diz Barbara, hoje com 42 anos, moradora de Pompano Beach, na Flórida. "Às vezes, é exatamente ali que começa a história que você nunca imaginou viver." E foi exatamente assim que aconteceu com ela.
Da beira da piscina ao posto de supervisora
Barbara começou como salva-vidas, subindo degrau por degrau: em cerca de um ano, foi promovida a tenente; um ano depois, a capitã. Hoje, ocupa o cargo de Aquatics Supervisor pela Prefeitura de Boca Raton, responsável por supervisionar equipes e cuidar da segurança de toda a área aquática da cidade.
"Foi uma trajetória construída aos poucos, aproveitando cada oportunidade para aprender, assumir novas responsabilidades e crescer dentro da profissão", conta. O que começou como uma alternativa de emprego se transformou em vocação — e depois, em carreira.
O desafio de aprender a salvar vidas em outro idioma
Se subir de cargo trouxe orgulho, também trouxe um dos maiores desafios da jornada de Barbara: o curso de Emergency Medical Technician (EMT), formação intensa e técnica, que ela precisou enfrentar em uma língua que não era a sua.
"Eu precisava aprender todo um novo vocabulário médico em inglês", relembra. Durante os estudos, entre provas difíceis e a rotina de trabalho em tempo integral, veio a dúvida: "Será que eu realmente vou conseguir fazer isso?" A resposta veio na persistência, prova após prova, até a conquista da licença. "Desistir significaria nunca descobrir se eu era capaz."
A língua, aliás, foi uma barreira constante — não apenas no dia a dia, mas especialmente ao estudar anatomia, protocolos de emergência e termos técnicos. Ainda assim, Barbara transformou essa dificuldade em combustível, somando à sua formação as certificações de Lifeguard Instructor e Water Safety Instructor, hoje usadas para ensinar e formar novos profissionais.
Ensinar a nadar é ensinar a viver
Para Barbara, o trabalho vai muito além de administrar piscinas ou supervisionar equipes. Está, sobretudo, nas aulas de natação para crianças. "É ensinar uma habilidade que pode salvar vidas", afirma. "Cada criança que aprende a nadar e a se sentir segura na água está mais preparada para evitar uma situação de afogamento no futuro."
É esse senso de propósito que a move todos os dias — e que, segundo ela, é uma das partes mais gratificantes da profissão.
Uma mensagem para quem está começando
Barbara acredita que sua trajetória pode inspirar outros brasileiros que hoje enfrentam os mesmos desafios de recomeçar em outro país. "O sotaque ou o fato de não termos nascido aqui não determina até onde podemos chegar", diz, com a convicção de quem transformou um emprego temporário em uma carreira de mais de duas décadas.
Seu conselho é direto: "Aprenda o idioma, estude, faça cursos, pergunte quando não souber e aproveite as oportunidades que aparecerem. E nunca pense que o seu sotaque significa falta de capacidade. Ele apenas mostra que você teve coragem de aprender e viver em outra língua."
Raízes brasileiras, novos sonhos
Mesmo depois de mais de duas décadas longe do Brasil, Barbara carrega consigo as lembranças da família e da comida do restaurante do pai — memórias que, segundo ela, continuam fazendo parte de quem é. E, como quem nunca para de sonhar, já cultiva um novo projeto pessoal: o Bah's Backyard Farm, iniciativa que nasceu em seu próprio quintal e une sua paixão por natureza, jardinagem e agricultura. Um dos seus sonhos futuros é ter uma fazenda de flores.
Hoje, ao olhar para trás, Barbara resume o que aprendeu em uma frase simples: "Sucesso é poder olhar para a vida que você construiu e sentir que ela faz sentido. O resto é consequência."
Siga a trajetória de Barbara Trevizan no Instagram: @bahsbackyardfarm

