Meses após deixar um centro de detenção do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), a imigrante Camila Muñoz ainda se lembra da concha de sorvete usada para servir a comida em bandejas de plástico — e da sensação constante de fome. “Você tem que comer de qualquer jeito, ou a noite vai te pegar”, disse ao USA Today.
Na unidade de Richwood, na Louisiana — um dos principais polos da política de deportações em massa da administração Trump —, detentas relatam refeições mal preparadas, vencidas e insuficientes, compostas principalmente por alimentos processados. O cardápio inclui mingau em pó, carnes enlatadas e pão com presunto congelado. Muitas dizem não ver uma fruta fresca há meses. Segundo dados do ICE, 97% das quase 750 mulheres presas em agosto não tinham antecedentes criminais.
Os relatos incluem ainda banheiros entupidos, mofo nos chuveiros e infestação de insetos. Mas o pior, segundo as mulheres, é a comida. Uma delas contou que o feijão “cheirava rançoso”, a geleia “virou cristal” e o presunto “vinha com gelo”. As refeições acontecem em horários imprevisíveis e as porções diminuíram à medida que a população carcerária aumentou.
A empresa LaSalle Corrections, responsável por administrar o centro, afirma seguir os padrões nacionais de detenção e ser supervisionada pelo Departamento de Segurança Interna (DHS). O governo garante que os detentos recebem “refeições adequadas e água potável”. Contudo, investigações federais apontam centenas de falhas relacionadas ao serviço de alimentação em unidades do ICE por todo o país.
Pesquisadores dizem que o problema é estrutural: cortar custos virou o modelo de negócio. “A comida ruim é parte da equação econômica”, explica Nancy Hiemstra, autora do livro Immigration Detention Inc.. Para ela, alimentar mal os imigrantes estimula o consumo no comissariado interno, onde produtos são vendidos a preços altos — muitas vezes por empresas ligadas às mesmas que fornecem a comida.
Camila conta que, no desespero, chegou a pensar em pegar comida do prato de outra detenta. “É humilhante. Nunca imaginei sentir isso no século 21”, desabafa. Mesmo assim, diz que aprendeu a dividir e sobreviver: “A gente não sabia o idioma uma da outra, nem quando seria deportada. Mas a fome nos uniu.”
Fonte: USA TODAY

