O que começou como um pedido de ajuda terminou em prisão e possível deportação para Axel Sanchez Toledo, um imigrante hondurenho que chamou a polícia na Flórida para verificar o estado de saúde da filha de 4 anos.
Segundo reportagem do The Marshall Project, Sanchez Toledo acionou o serviço de emergência 911 em dezembro pedindo que o gabinete do xerife de Palm Beach realizasse uma checagem de bem-estar da criança, com quem divide a guarda.
A abordagem dos policiais parecia cordial inicialmente. Porém, após verificar seus documentos, um dos agentes afirmou que Sanchez Toledo estaria em situação migratória irregular e informou que ele seria detido para o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE).
Imagens de câmera corporal mostram o homem tentando fugir antes de ser perseguido, atingido com arma de choque, derrubado e algemado enquanto sua companheira implorava para os agentes pararem.
“Por favor, eu não sou criminoso”, dizia Sanchez Toledo durante a prisão.
O caso expôs o funcionamento do programa conhecido como 287(g), acordo que permite que policiais locais atuem em parceria com o ICE para aplicar leis federais de imigração.
Segundo o levantamento, mais de 1.100 agências policiais americanas aderiram ao programa, principalmente em estados do sul dos EUA, impulsionadas por incentivos financeiros do governo federal.
Em Palm Beach, apenas cerca de 150 dos 1.500 policiais possuem autorização para atuar em ações migratórias, mas o departamento registrou média de mais de 60 detenções de imigrantes por mês entre setembro de 2025 e março de 2026.
Desde que aderiu ao acordo, o Departamento de Segurança Interna repassou quase US$ 1 milhão ao gabinete do xerife em reembolsos e incentivos ligados à imigração.
A reportagem afirma que outros moradores também acabaram detidos após contatos rotineiros com a polícia, incluindo vítimas de crimes, pessoas envolvidas em pequenos acidentes de trânsito e moradores que buscavam ajuda policial.
Advogados e organizações de defesa dos imigrantes relatam aumento do medo dentro das comunidades latinas, levando muitas pessoas a evitarem ligar para a polícia até mesmo em situações de emergência.
“Antes nós sempre dizíamos para ligar para o gabinete do xerife. Agora pensamos duas vezes”, afirmou Mariana Blanco, diretora do Guatemalan-Maya Center, organização de apoio a imigrantes na Flórida.
Críticos do programa afirmam que a ampliação dessas parcerias aumenta o risco de abusos, discriminação racial e violações de direitos civis, especialmente após cortes em órgãos federais responsáveis por fiscalizar práticas policiais.
O programa havia sido reduzido durante o governo Obama após denúncias de perfilamento racial, mas foi retomado e ampliado durante os mandatos de Donald Trump.
No caso de Sanchez Toledo, a acusação criminal de resistência à prisão acabou retirada após ele escrever uma carta de desculpas ao policial que o prendeu.
Mesmo assim, o imigrante permaneceu preso e foi transferido ao ICE em maio, onde aguarda possível deportação. Segundo seu advogado, ele não fala com a filha desde dezembro.
“A família pediu ajuda e aconteceu exatamente o oposto”, afirmou o advogado Isai Bonilla. “Eles ficaram traumatizados.”
Fonte: Miami Herald

