Um homem que afirma ter trabalhado por anos para as autoridades de inteligência e segurança dos Estados Unidos, ajudando a investigar e prender integrantes de grupos terroristas, agora enfrenta uma possível deportação pelo próprio governo americano.
Blerim Skoro, de 55 anos, nascido em Kosovo e pai de três filhos, foi preso por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) no dia 3 de agosto, quando compareceu a um escritório de imigração em Nova Jersey para renovar seus documentos.
Seus advogados entraram com uma ação na Justiça Federal para impedir a deportação. Eles afirmam que Skoro recebeu proteção para permanecer nos EUA depois de anos de trabalho considerado relevante para o governo americano.
Em 2022, um juiz federal determinou que ele não poderia ser deportado para Kosovo devido ao risco de tortura e morteno país, sob proteção prevista pela Convenção das Nações Unidas contra a Tortura.
De informante do FBI a suposto agente infiltrado
A relação de Skoro com as autoridades americanas teria começado em 2000, quando ele foi preso por tráfico de drogas.
Segundo documentos do FBI, Skoro se tornou informante enquanto cumpria pena em uma prisão federal na Pensilvânia. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, ele afirma que passou a trabalhar para a inteligência americana por causa de seus contatos com grupos islâmicos radicais.
Entre 2002 e 2006, Skoro diz ter fornecido informações ao FBI sobre integrantes de organizações extremistas, incluindo pessoas posteriormente condenadas por crimes relacionados ao terrorismo.
Documentos do FBI de 2004 obtidos pela CBS News identificam Skoro como informante em uma investigação relacionada a Osama bin Laden. Os registros, parcialmente censurados, afirmam que ele forneceu informações consideradas “confiáveis” e “acionáveis”, incluindo detalhes sobre um suposto campo de treinamento na Síria.
Missões de infiltração
Após ser deportado para Kosovo em 2007, Skoro afirma que recebeu uma missão da CIA para se infiltrar na Al Qaeda.
Segundo seu relato, entre 2007 e 2009 ele atuou secretamente em diferentes países, incluindo Kosovo, Síria, Líbano, Jordânia, Paquistão e Egito.
Ele afirma ainda ter participado da operação que levou à prisão do terrorista Betim Kaziu, condenado nos Estados Unidos a 27 anos de prisão por tentar adquirir armas para o grupo extremista al-Shabaab, com o objetivo de atacar tropas americanas no exterior.
Em uma declaração apresentada à Justiça, Skoro disse que informou secretamente à CIA sua localização enquanto Kaziu estava em seu apartamento no Kosovo. O suspeito foi preso em julho de 2009.
E-mails compartilhados por Skoro com a CBS News mostram uma mensagem enviada em setembro daquele ano por uma pessoa que ele identifica como seu contato na CIA, mencionando que Kaziu havia sido levado de volta aos Estados Unidos. A CIA não respondeu aos pedidos de comentário da emissora.
Skoro também afirma ter ajudado a impedir o envio de materiais radioativos para Kosovo que poderiam ser usados em um possível ataque com uma “bomba suja”.
Vida nos EUA e nova batalha migratória
Depois de retornar aos Estados Unidos em 2014, Skoro passou a trabalhar como taxista em Staten Island, Nova York, e construiu uma vida com sua esposa americana e os três filhos.
Ele voltou a entrar no radar do ICE em 2016, depois de ser preso pela polícia de Nova York por utilizar o cartão de transporte público com desconto estudantil da filha. O episódio desencadeou uma longa disputa migratória.
Em novembro de 2022, um juiz federal determinou que o governo não poderia deportá-lo para Kosovo devido ao risco de tortura e assassinato, mas a decisão não concedeu a ele residência permanente.
Agora, seus advogados argumentam que o ICE não poderia simplesmente prendê-lo e iniciar novamente o processo de deportação sem autorização judicial.
“Eles me traíram”
Detido no Elizabeth Detention Center, em Nova Jersey, Skoro afirma temer ser enviado de volta a Kosovo.
“Eu nunca pensei que eles fossem me trair assim”, disse à CBS News. “Se eu morrer, quero morrer neste país para que meus filhos possam me enterrar.”
Sua esposa, Susan Skoro, estava com ele no momento da prisão. Segundo ela, agentes do ICE o levaram para uma sala assim que ele se apresentou no escritório de imigração e depois o retiraram do local em um carro.
“Eles o traíram. Ele cumpriu sua pena. Quase perdeu a vida e ninguém se importa. Ele merece um perdão”, afirmou.
O advogado de Skoro, Joshua Dratel, disse que seu cliente levou uma vida “completamente legal e produtiva” nos últimos dez anos, depois de uma experiência que, segundo ele, foi realizada com coragem e habilidade em benefício dos Estados Unidos.
A petição apresentada à Justiça afirma que Skoro trabalhou para a CIA, o FBI e a DEA durante quase uma década.
Justiça analisa pedido para impedir deportação
Em uma nova petição apresentada em 17 de agosto, os advogados alegam que a proteção concedida em 2022 impede o ICE de deportar Skoro sem antes obter autorização de um juiz.
O governo americano ainda precisa responder ao pedido. O juiz federal Robert Kirsch determinou que as autoridades apresentem uma resposta até quinta-feira.
O ICE confirmou ter recebido o pedido de comentário da CBS News, mas não respondeu. CIA e FBI também não se manifestaram.
Enquanto aguarda a decisão judicial, Skoro permanece sob custódia do ICE.
Fonte: CBS

