Centenas de e-mails trocados entre autoridades de imigração dos Estados Unidos revelam que o ICE trabalhou em coordenação com o governo do Irã para deportar iranianos de volta ao país no fim de 2025 e início de 2026.
Os documentos, obtidos pelo National Iranian American Council (NIAC) e divulgados nesta terça-feira, detalham como autoridades dos dois países organizaram três voos de deportação, realizados em setembro e dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Mais de 100 iranianos foram enviados de volta ao país nessas operações.
As mensagens indicam que autoridades iranianas chegaram a ter influência sobre quem seria incluído nas listas de deportação. Em um dos e-mails, um funcionário do ICE escreveu: “A pedido da Embaixada do Irã, adicionei alguns casos”. Em outra mensagem, o agente afirmou ter feito uma alteração na lista após se reunir com o diretor da embaixada iraniana.
Poucos dias antes de um dos voos, autoridades iranianas ainda solicitavam mudanças na relação de passageiros. Segundo os documentos, algumas dessas solicitações foram atendidas, enquanto outras foram rejeitadas.
Deportações ocorreram mesmo durante conflito
A coordenação continuou mesmo quando autoridades americanas reconheciam que iranianos estavam fugindo do país em meio ao conflito de 12 dias entre Irã, Estados Unidos e Israel, em junho de 2025.
Na época, o espaço aéreo iraniano estava fechado e o governo não emitia documentos de viagem para alguns deportados. Ainda assim, e-mails mostram que a operação continuou sendo tratada como uma prioridade da administração Trump.
Poucos dias depois de o então presidente Donald Trump publicar um alerta pedindo que as pessoas deixassem imediatamente Teerã, o então diretor interino do ICE, Todd Lyons, classificou a repatriação de iranianos como uma “prioridade”.
Outro funcionário, Marcos Charles, responsável pelas operações de remoção, orientou a equipe a elaborar um plano para deportar 58 iranianos que já tinham ordens finais de remoção.
Irã teria participado da definição dos deportados
Os e-mails também levantam dúvidas sobre o nível de participação do governo iraniano no processo. Em alguns casos, as comunicações ocorreram por meio de autoridades do Catar, que ajudaram a organizar os voos. Em outros, os documentos mencionam reuniões diretas com uma “delegação iraniana” e autoridades da Embaixada do Irã.
Não está claro se todas as pessoas incluídas nas listas aceitaram voluntariamente retornar ao país ou se algumas foram deportadas contra a própria vontade.
Reportagens anteriores do New York Times indicaram que solicitantes de asilo estavam entre os iranianos deportados, enquanto outras pessoas disseram ter sido enviadas ao Irã contra sua vontade.
Um dos e-mails ainda registra um possível erro na operação. Segundo um funcionário americano, um iraniano que não constava na lista final enviada às autoridades do Catar acabou embarcando no voo. Outro agente respondeu: “Não faço ideia de como o caso/pessoa passou para o avião”.
Caso provoca críticas e levanta questões sobre asilo
A deportação de iranianos para um país acusado de perseguir violentamente mulheres, minorias religiosas e dissidentes políticos provocou críticas de organizações de direitos humanos.
O presidente do NIAC, Jamal Abdi, afirmou que os documentos contradizem declarações de Trump de que os Estados Unidos estariam enfrentando o Irã para proteger sua população.
“Isso demonstra que a principal prioridade era expulsar o maior número possível de pessoas, por qualquer meio necessário”, declarou.
Os documentos também mostram situações em que autoridades do ICE organizaram encontros entre funcionários iranianos e pessoas detidas nos Estados Unidos.
O episódio ganhou ainda mais atenção após uma ação judicial apresentada em julho, na qual 11 iranianos detidos sob custódia migratória afirmaram ter sido obrigados a se reunir com autoridades iranianas. Segundo declarações apresentadas à Justiça, esses representantes teriam conhecimento de detalhes pessoais dos pedidos de asilo.
A ação acusa as autoridades americanas de terem compartilhado ilegalmente informações confidenciais de solicitantes de asilo iranianos com o governo do Irã.
O governo dos Estados Unidos negou as acusações. Em julho, o Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que as alegações de compartilhamento de registros de pedidos de asilo com o governo iraniano eram “falsas”.
Embora autoridades americanas possam trabalhar com governos estrangeiros para organizar deportações, regulamentações federais estabelecem restrições ao compartilhamento de informações que possam revelar que uma pessoa deportada solicitou asilo.
Fonte: CBS

