O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) prendeu mais que o dobro de crianças imigrantes nos primeiros sete meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento do The Marshall Project em parceria com o The Guardian. Desde o retorno de Donald Trump à Presidência, a agência já prendeu mais de 8,5 mil menores, de acordo com os dados analisados.
A investigação utilizou informações obtidas pelo Deportation Data Project, iniciativa de pesquisa das universidades da Califórnia em Berkeley e Los Angeles. Os dados indicam que a maioria das crianças contabilizadas não possui condenações criminais nem acusações pendentes além de questões relacionadas à imigração, que geralmente são tratadas como infrações civis nos Estados Unidos.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) contestou a precisão dos dados, mas não apresentou números alternativos nem evidências para sustentar a crítica.
Crianças são mantidas em hotéis e centros de detenção
Embora centenas de menores continuem sendo enviados ao centro de detenção migratória de Dilley, no Texas, crianças também têm sido mantidas por períodos mais curtos em hotéis e salas de espera instaladas em prédios comerciais.
Advogados afirmam que, nesses locais, algumas famílias enfrentam dificuldades para localizar os detidos, obter assistência jurídica e manter contato com parentes. Documentos judiciais relacionados a um processo coletivo registraram 86 crianças mantidas em hotéis por mais de três dias durante fevereiro e março.
Em abril, o juiz federal responsável pelo acordo judicial conhecido como Flores reiterou uma ordem para que o ICE deixasse de manter crianças em hotéis, permitindo exceções restritas para estadias de uma ou duas noites durante deslocamentos ou antes de voos.
O governo americano afirmou em documentos judiciais que algumas hospedagens foram necessárias por causa de atrasos em voos ou dificuldades para obter documentos de viagem.
Família relata nove dias isolada em hotel
Uma imigrante identificada pelas iniciais M.S.P. contou que foi detida com os dois filhos durante um comparecimento previamente agendado ao ICE, em fevereiro. A família vivia havia nove anos em Long Island, Nova York, mas acabou levada para um hotel no Texas.
Segundo a mulher, os três permaneceram nove dias sem poder sair do quarto ou olhar pelas janelas. Dois guardas ficavam no local o tempo todo, inclusive perto da porta do banheiro. Ela também afirmou que só teve permissão para fazer duas ligações telefônicas de três minutos para a sogra.
A mãe relatou que os filhos ficaram abalados: o adolescente chorava e se preocupava com as aulas perdidas, enquanto a criança de 12 anos temia pelo gato deixado em casa.
O advogado da família afirmou em documentos judiciais que não conseguiu localizar os parentes no sistema oficial de busca de detidos do ICE, o que dificultou a prestação de assistência jurídica.
Prisões aumentam em diferentes estados
O levantamento aponta que o crescimento foi especialmente expressivo em alguns estados. Em Massachusetts e na Flórida, o número de crianças presas nos primeiros sete meses de 2026 superou em mais de duas vezes o total registrado durante todo o ano de 2025. Em Nova York e Nova Jersey, as detenções triplicaram.
Advogados que acompanham famílias imigrantes afirmam que muitas crianças vivem nos Estados Unidos há anos e são separadas abruptamente de suas casas, escolas e comunidades.
Em um depoimento judicial, um adolescente de 16 anos relatou que agentes entraram em sua residência por volta das 5h da manhã e abordaram seu irmão de 12 anos. Segundo o relato, os policiais apontaram uma arma para o menino, jogaram-no contra uma parede e o algemaram. O adolescente afirmou que também foi submetido ao mesmo tratamento.
Especialistas criticam impacto sobre menores
Advogados e organizações de defesa dos imigrantes afirmam que as detenções têm provocado medo nas comunidades e prejudicado o acesso de crianças à educação e ao apoio jurídico.
Elora Mukherjee, professora de Direito da Universidade Columbia e advogada de famílias imigrantes, disse que muitos de seus clientes foram detidos enquanto cumpriam determinações dos tribunais de imigração.
Michelle Brané, diretora-executiva da organização Together and Free, também relatou casos de crianças mantidas em hotéis separadas dos pais, incluindo um menino de 11 anos que teria permanecido cinco dias em um quarto enquanto o pai era levado para um centro de detenção de adultos.
O governo Trump afirma que suas medidas de fiscalização buscam retirar do país pessoas que representam riscos à segurança pública. Advogados e entidades de defesa dos imigrantes, porém, argumentam que as operações também atingem crianças vulneráveis e famílias com possibilidades de regularizar sua permanência nos Estados Unidos.
O levantamento mostra que, mesmo com a redução do número de menores enviados a Dilley após protestos e denúncias sobre as condições do local, as detenções de crianças continuaram em ritmo elevado.
Fonte: The Marshall Project

