A deportação dos pais tem obrigado jovens nos Estados Unidos a assumir a responsabilidade pelos irmãos mais novos, muitas vezes interrompendo os próprios planos de estudo e carreira. É o caso de Wendy Domingo, de 18 anos, que passou a sustentar e cuidar de três irmãos após a mãe ser deportada para a Guatemala e o pai decidir deixar o país.
Em 9 de agosto, Wendy dirigia com os pais e os quatro irmãos a caminho de uma loja de calçados quando foi parada por um agente da Patrulha de Fronteira. Segundo um vídeo compartilhado com a ABC News, o policial afirmou que a placa do veículo estava registrada em nome de uma pessoa sem cidadania americana.
Os pais de Wendy, Abraham Domingo e Maria Leiva, não conseguiram apresentar documentos de cidadania e foram detidos. Inicialmente, ficaram juntos em centros de detenção na Flórida, mas depois foram separados. Leiva foi deportada para a Guatemala, enquanto Abraham optou por deixar os Estados Unidos para evitar uma detenção prolongada.
Wendy, que havia completado 18 anos no dia anterior à abordagem, precisou buscar ajuda de amigos da família para voltar para casa com os irmãos e descobrir o destino dos pais. Cerca de um mês depois, com o auxílio do Guatemalan-Maya Center, ela enviou o irmão mais novo para viver na Guatemala. Agora, trabalha em um hotel para sustentar os outros três irmãos, de 16, 14 e 12 anos.
Quando Wendy trabalha até tarde, às vezes até meia-noite, a irmã mais nova precisa cuidar dos outros. Ela também está aprendendo a cozinhar para ajudar a manter a casa.
“Estamos todos tendo que assumir responsabilidades e estar presentes uns para os outros”, contou Wendy à ABC News. Ela descreveu a mudança na rotina familiar como dolorosa e disse que a casa, antes movimentada, ficou silenciosa.
Jovens adiam sonhos para cuidar da família
Wendy não é a única a enfrentar essa realidade. Eliza Perez, de 21 anos, também passou a cuidar dos três irmãos, de 18, 16 e 14 anos, depois que os pais foram deportados dois dias antes do Dia de Ação de Graças do ano passado.
Ela adiou a faculdade para assumir o negócio de jardinagem da família e garantir o sustento da casa. Os pais haviam deixado a Guatemala ainda jovens e viviam nos Estados Unidos havia quase 30 anos quando foram detidos.
“Precisei deixar meus sonhos de lado, que eram estudar e conseguir um trabalho em um escritório, com ar-condicionado. Não ficar aqui, debaixo do sol”, disse Perez.
Segundo Mariana Blanco, diretora de operações do Guatemalan-Maya Center, a organização tem observado um aumento no número de crianças que ficam sem os pais após deportações. Desde o início do atual governo Trump, o grupo ajudou a reunir 57 crianças com familiares deportados para Guatemala, Colômbia e El Salvador.
Blanco afirma que algumas famílias precisam decidir se os irmãos mais novos irão para o país de origem com os pais, enquanto os mais velhos permanecem nos Estados Unidos. Mesmo quando há amigos e membros da comunidade dispostos a ajudar, ela ressalta que esse apoio não substitui a presença dos pais.
Governo nega separar famílias
Em declaração à ABC News, um porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que o governo não separa famílias. Segundo o órgão, os pais podem escolher se querem ser removidos junto com os filhos ou indicar uma pessoa considerada segura para cuidar dos menores.
O DHS também declarou que Abraham Domingo e Maria Leiva entraram ilegalmente nos Estados Unidos e que ambos retornaram à Guatemala. A agência afirmou ainda que Abraham tinha acusações anteriores de violência doméstica. A ABC News confirmou que as acusações foram apresentadas em 2024, mas posteriormente retiradas.
O caso de Wendy ilustra os efeitos que a separação familiar pode ter sobre jovens que, mesmo sendo cidadãos americanos, passam a responder pelo sustento e pelo cuidado de irmãos menores após a deportação dos pais.
Fonte: ABC

