A procura de brasileiros por oportunidades de imigração legal para os Estados Unidos disparou após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo escritórios de advocacia especializados ouvidos pela Folha de S.Paulo. Na segunda-feira (27), um dia após o segundo turno, empresas do setor registraram centenas de consultas de potenciais clientes, em números muito superiores aos habituais.
A Piquet Law Firm, escritório com sede em Miami, recebeu 700 consultas ao longo do dia, segundo seu fundador, Alexandre Piquet. Normalmente, a empresa recebe entre 500 e 600 consultas por mês.
Em Orlando, a Bicalho Legal Consulting registrou 643 avaliações iniciais na mesma segunda-feira. De acordo com o fundador, Vinícius Bicalho, a média diária costuma ser de aproximadamente 20 novos contatos interessados nos serviços.
Os advogados afirmam que o aumento da procura após eleições brasileiras ocorre desde pelo menos 2014, mas dizem que o movimento atual superou o observado em disputas anteriores, inclusive em 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro (PL).
Investidores e profissionais qualificados lideram a procura
Segundo os escritórios, muitos interessados são famílias com recursos para investir nos Estados Unidos, inclusive no mercado imobiliário, e profissionais altamente qualificados que buscam oportunidades no mercado de trabalho americano.
Entre as categorias de visto mais procuradas estão:
EB-5: destinado a investidores que atendam aos requisitos do programa, incluindo investimento de pelo menos US$ 800 mil em projetos elegíveis em determinadas condições.
EB-1A: voltado a pessoas com habilidades extraordinárias em áreas como ciência, artes, educação, negócios ou esportes.
EB-2 NIW: categoria que pode permitir a dispensa de oferta de emprego e certificação trabalhista para profissionais que atendam aos critérios de interesse nacional dos Estados Unidos.
As consultas registradas representam principalmente avaliações preliminares para identificar quais categorias podem se aplicar a cada caso. Isso não significa que todos os interessados iniciarão um processo migratório ou terão seus pedidos aprovados.
Na Piquet Law Firm, 150 dos 700 contatos recebidos foram considerados inicialmente promissores para possíveis solicitações de visto. Já a Bicalho Legal Consulting informou que, em média, cerca de 10% dos contatos avançam para a contratação dos serviços.
Insatisfação política também aparece nos relatos
De acordo com Bicalho, parte dos interessados menciona divergências políticas em relação ao governo eleito no Brasil e insatisfação com a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).
O advogado também relatou aumento de consultas em setembro, após notícias sobre a possibilidade de abertura de uma investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A análise acabou adiada após um pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Regras para imigração legal seguem diferentes
Embora o governo de Donald Trump mantenha uma política rigorosa contra a imigração irregular, com deportações e maior controle da fronteira com o México, os escritórios afirmam não ter observado mudanças equivalentes nas regras aplicáveis a pessoas que buscam vistos regulares, especialmente nas categorias voltadas a investidores.
Segundo os dados mais recentes do Itamaraty citados na reportagem, pelo menos 2 milhões de brasileiros vivem nos Estados Unidos. As maiores concentrações estão nas regiões de Miami e Orlando, na Flórida, além de Boston, Nova York e Nova Jersey.
Flávio Bolsonaro venceu entre brasileiros nos EUA
Tradicionalmente, a comunidade brasileira nos Estados Unidos tende a votar mais em candidatos de direita. No segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 61,45% dos votos entre brasileiros que votaram no país, contra 36,63% de Lula, segundo os números apresentados na reportagem.
Flávio venceu em cidades como Atlanta, Boston, Hartford, Houston, Miami e Orlando. Lula teve maioria em Chicago, Los Angeles, Nova York, San Francisco e Washington.
O resultado foi semelhante ao do primeiro turno, com uma mudança em Nova York, onde Lula passou a liderar no segundo.
Fonte: Folha de S. Paulo

