Uma investigação publicada pelo Miami Herald revelou detalhes inéditos sobre como Jeffrey Epstein utilizava o Brasil como um dos principais pontos de recrutamento de jovens e adolescentes para sua rede internacional de exploração sexual.
A reportagem, assinada pelo jornalista Shirsho Dasgupta, é baseada em milhões de páginas de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Segundo os registros, Epstein atraía meninas brasileiras — algumas com apenas 13 anos — com promessas de trabalhos como modelo, viagens internacionais e oportunidades de ascensão financeira.
O esquema contava com a participação de olheiros e agências de modelos ligadas ao empresário francês Jean-Luc Brunel, ex-sócio de Epstein, que morreu em 2022 enquanto era investigado na França por estupro e tráfico de mulheres. As vítimas, segundo a investigação, geralmente vinham de famílias pobres e cidades pequenas do Brasil.
Nos anos 2000, Epstein viajava frequentemente ao Brasil para participar de concursos de modelos e se aproximar de jovens promessas da indústria da moda. Ele mantinha um apartamento no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo, e, segundo os documentos, convidava mulheres para hotéis de luxo na cidade, onde pedia que se despissem diante dele.
A reportagem aponta que Epstein também investia na aparência das jovens recrutadas. Entre os benefícios oferecidos estavam bolsas de luxo, viagens internacionais, tratamentos estéticos e atendimentos com profissionais renomados, incluindo o cabeleireiro de celebridades Frédéric Fekkai.
Para levar as meninas aos Estados Unidos, as agências de Brunel providenciavam vistos de trabalho alegando oportunidades no setor da moda. Epstein arcava com os custos jurídicos dos processos migratórios. Em um dos depoimentos citados pelo Herald, uma ex-contadora das agências afirmou que quatro meninas brasileiras foram levadas para Epstein — duas delas tinham entre 13 e 15 anos.
Segundo a testemunha, muitas jovens nunca chegaram a trabalhar como modelos. Em vez disso, eram encaminhadas para festas promovidas por Epstein em suas mansões em Palm Beach e Manhattan.
A investigação também relata o caso de uma adolescente brasileira de 15 anos que venceu um concurso internacional de modelos realizado no Equador, em 2004. Registros de voo mostram que ela viajou diversas vezes no jato particular de Epstein entre destinos como Palm Beach, Nova York, Paris e Little St. James, ilha privada do financista no Caribe apontada por vítimas como cenário de abusos sexuais.
Os documentos revelam ainda mensagens que indicam o nível de controle exercido por Epstein sobre mulheres brasileiras recrutadas por sua rede. Em e-mails obtidos pela investigação, ele critica modelos por não seguirem suas exigências pessoais, incluindo pedidos relacionados à aparência física e comportamento.
Em 2016, Epstein chegou a avaliar a compra de agências de modelos brasileiras ao lado do músico e olheiro Ramsey Elkholy. Em mensagens trocadas em 2016, Elkholy expressa que investindo em agências e edições brasileiras de revistas, o empresário teria acesso mais fácil a meninas mais jovens. Não está claro se ele chegou a investir em alguma das agências.
Agentes federais da lei prenderam Epstein em 6 de julho de 2019, sob acusações de tráfico sexual. Ele foi encontrado morto em sua cela em um centro de detenção federal em Lower Manhattan cerca de um mês depois, em 10 de agosto.

