O governo do presidente Donald Trump estuda uma série de mudanças nas regras para compra e comercialização de armas de fogo nos Estados Unidos, incluindo a possibilidade de permitir que fuzis sejam comprados pela internet e entregues diretamente pelos Correios. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que a flexibilização pode facilitar o desvio de armamentos para organizações criminosas internacionais, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
As propostas fazem parte de uma revisão das políticas de controle de armas iniciada pela Casa Branca com o objetivo de reforçar o direito previsto na Segunda Emenda da Constituição americana. Entre as medidas em análise estão a revogação de restrições implementadas durante o governo Joe Biden e a substituição da verificação presencial de antecedentes por um processo totalmente digital para compras online.
Embora o debate esteja centrado na política interna dos Estados Unidos, especialistas alertam que as mudanças podem ter reflexos diretos no tráfico internacional de armas. Segundo eles, a facilidade para adquirir armamentos pode aumentar o número de armas desviadas para grupos criminosos em outros países, incluindo o Brasil.
Os Estados Unidos já são uma das principais origens dos fuzis apreendidos com facções brasileiras. Grande parte dessas armas entra no país por meio de contrabando, escondida em cargas comuns ou transportada por rotas terrestres que passam por países vizinhos, como o Paraguai. Casos recentes incluem apreensões de fuzis desmontados escondidos em eletrodomésticos e equipamentos industriais.
John Lindsay-Poland, coordenador do projeto *Stop US Arms to Mexico*, afirma que uma das propostas mais preocupantes é justamente a entrega de armas pelos Correios, sem necessidade de contato presencial entre comprador e vendedor. Para ele, o maior problema continua sendo a permissividade do mercado civil de armas nos Estados Unidos, que permite que compras suspeitas ocorram dentro da legalidade.
Já o pesquisador Matt Schroeder, da organização suíça *Small Arms Survey*, avalia que o impacto das novas regras sobre o tráfico ilegal pode ser limitado, já que criminosos já conseguem adquirir armas legalmente por meio de intermediários sem antecedentes criminais. No entanto, ele alerta que o afrouxamento das regras para exportações legais pode aumentar o desvio de armamentos para mercados ilícitos em diversos países.
Em 2025, o governo Trump também revogou restrições impostas pela administração Biden à exportação de armas civis para 36 países considerados sensíveis, entre eles Paraguai, Colômbia, Peru e Suriname. A medida foi defendida pelo Departamento de Comércio como forma de impulsionar a indústria armamentista americana, mas recebeu críticas de organizações como a Anistia Internacional, que aponta o uso frequente de armas exportadas legalmente em crimes e violações de direitos humanos.
No Brasil, levantamento do Instituto Sou da Paz mostra que mais de dois mil fuzis foram apreendidos em 2025, um aumento de 167% em relação a 2021. Entre os armamentos cuja origem foi identificada, os Estados Unidos aparecem como o principal fabricante, à frente do próprio Brasil.
Apesar disso, autoridades brasileiras destacam que o crescimento das fábricas clandestinas de armas dentro do país representa hoje um dos maiores desafios para o combate ao crime organizado. Segundo o Ministério da Justiça, essas oficinas ilegais já conseguem produzir fuzis de alta capacidade a custos menores, reduzindo a dependência das facções em relação ao contrabando internacional. Ainda assim, especialistas defendem que mudanças nas regras americanas podem fortalecer o fluxo de armas para organizações criminosas e ampliar os desafios enfrentados pelas forças de segurança brasileiras.
Fonte: G1

