Horas antes de tirar a própria vida, o estudante e atleta universitário Pierre Damas Bel, de 20 anos, ligou para o pai em busca de ajuda.
Era por volta das 8h e Bel estava dentro do carro, às margens da Interstate 70, em Ohio, enfrentando dificuldades emocionais e psicológicas relacionadas à vergonha de ter sido obrigado pelas autoridades de imigração a usar uma tornozeleira eletrônica. O jovem, estudante da Wright State University, havia contado à família que sofria bullying na universidade e se sentia “humilhado” pelo dispositivo.
“Eu disse a ele para voltar para casa para que pudéssemos conversar”, afirmou o pai de Bel, em uma declaração enviada por e-mail. “Por volta das 11h, a polícia apareceu na minha porta para informar que meu filho havia morrido.”
A Patrulha Rodoviária de Ohio confirmou a morte. A família atribuiu o episódio à humilhação que, segundo os parentes, Bel vinha enfrentando desde que passou a usar a tornozeleira, em julho.
Carl Ruby, pastor local e ativista pelos direitos dos imigrantes, afirmou que a família queria deixar claro que se tratava de um suicídio relacionado às políticas de imigração.
Bel chegou aos Estados Unidos em 2024 e solicitou entrada no país por meio do aplicativo CBP One, posteriormente descontinuado, segundo o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Ele foi liberado para permanecer no país e se estabeleceu em Springfield com os pais e dois irmãos.
O jovem se destacou tanto nos estudos quanto no esporte. Foi aluno de honra na Springfield High School, participou do programa JROTC e recebeu uma bolsa para jogar futebol na Wittenberg University. Segundo ativistas de imigração, ele pretendia cursar medicina depois da graduação.
Em maio, o distrito escolar de Springfield publicou uma homenagem a Bel no Facebook ao anunciar os estudantes que haviam recebido uma bolsa local de US$ 2.500. Vestindo um terno azul e uma gravata borboleta preta, ele aparece nas fotos sorrindo ao receber o prêmio.
O futuro parecia promissor.
Mudança começou após decisão sobre status migratório
A situação começou a mudar em 29 de julho, quando o ICE incluiu Bel em um programa de “alternativas à detenção” e determinou que ele usasse uma tornozeleira eletrônica enquanto seu processo migratório continuava.
Bel registrou a experiência nas redes sociais. Em 30 de julho, escreveu que havia ido aos Estados Unidos para estudar, e não para “cometer um crime ou machucar alguém”.
“Agora, porém, estou andando pelas ruas dos Estados Unidos com um dispositivo de GPS na perna, carregando um sentimento de vergonha e humilhação que nunca imaginei que viveria”, escreveu.
Bel fazia parte dos cerca de 300 mil haitianos que vivem nos Estados Unidos e perderam o Status de Proteção Temporária (TPS) no fim de julho, após uma decisão da Suprema Corte americana. A mudança provocou uma onda de medo e incerteza em Springfield, cidade onde vivem cerca de 12 mil haitianos.
O ICE afirmou que não comenta a causa de uma morte enquanto uma investigação está em andamento.
“Não vamos especular sobre alegações não verificadas envolvendo outras pessoas”, afirmou a agência, em comunicado enviado por e-mail.
Segundo o time masculino de futebol da Wittenberg University, Bel não pôde mais jogar pela equipe depois de perder o TPS. Ele então se transferiu para a Wright State University, onde, segundo a família, passou a enfrentar provocações e bullying por parte de outros estudantes.
“Não queremos politizar isso, mas este é um problema político, e a única solução é uma solução política”, disse Ruby a jornalistas na terça-feira.
“A única maneira de garantir que isso não continue acontecendo é que autoridades republicanas eleitas se juntem a nós para exigir uma política melhor”, afirmou.
O governador de Ohio, Mike DeWine, do Partido Republicano, já criticou as rígidas medidas de fiscalização migratória do governo Donald Trump e seus impactos sobre moradores do estado.
Na terça-feira, ele classificou a morte de Bel como uma “tragédia horrível” que jamais deveria ter acontecido.
“Precisamos nos perguntar: isso é realmente bom? É isso que queremos que seja feito com pessoas como ele, que são detidas e enfrentam a deportação? Queremos que isso seja feito em nosso nome?”, questionou o governador.
Springfield vive tensão em torno da imigração
Springfield, uma pequena cidade no sudoeste de Ohio, tornou-se centro de rumores infundados e discursos inflamados sobre a comunidade haitiana durante a eleição presidencial de 2024.
Em agosto, o ICE começou a convocar haitianos para comparecer pessoalmente a consultas de acompanhamento. Nessas ocasiões, alguns receberam tornozeleiras eletrônicas para monitorar seus deslocamentos enquanto juízes de imigração avaliam se eles têm motivos legítimos para permanecer no país, como pedidos de asilo.
Um alto funcionário do Departamento de Segurança Interna afirmou que as tornozeleiras são usadas, em geral, por causa da falta de espaço para deter os mais de 300 mil haitianos que perderam o TPS após a decisão da Suprema Corte, em junho.
A chegada de imigrantes haitianos dividiu os moradores de Springfield. Parte da população considerou os novos residentes uma das forças por trás da recuperação econômica da cidade. Outros reclamaram que Springfield não estava preparada para receber tantos imigrantes, apontando para o aumento das filas em clínicas médicas e dos preços dos aluguéis.
Apesar da atenção negativa, muitos haitianos prosperaram na cidade que adotaram como lar, trabalhando na indústria, comprando imóveis e abrindo negócios.
Em alguns momentos, as tensões aumentaram. Grupos supremacistas brancos e influenciadores de extrema direita entraram em confronto com ativistas de imigração e líderes religiosos que buscavam proteger a comunidade haitiana.
Viles Dorsainvil, cofundador e diretor-executivo do Haitian Support Center, afirmou que a família Bel é uma entre centenas que procuraram a organização em busca de orientação jurídica e apoio. Ele estima que 34 pessoas tenham sido detidas desde o fim do TPS.
Segundo Dorsainvil, a morte de Bel é provavelmente o primeiro suicídio em Springfield relacionado à fiscalização migratória.
“Sei que muitas pessoas estão deprimidas neste momento”, afirmou. “Nunca imaginei que a situação chegaria a esse ponto.”
Fonte: NBC

