Documentos do caso Jeffrey Epstein indicam que materiais classificados por razões de segurança nacional podem ter sido incluídos nos arquivos coletados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), mas não divulgados ao público. Uma análise da CBS News também identificou lacunas em sequências de documentos, incluindo registros financeiros e trocas de e-mails, sem que esteja claro por que parte do material foi retirada.
As descobertas levantam dúvidas sobre a afirmação do procurador-geral adjunto Todd Blanche de que nenhum arquivo estaria sendo retido ou censurado por motivos de segurança nacional. Em declarações anteriores, Blanche afirmou que, embora a lei de transparência dos arquivos de Epstein permitisse ocultar informações relacionadas à segurança nacional ou à política externa, o governo não estava usando essa justificativa para restringir a divulgação.
Um dos registros analisados mostra que, em 25 de março de 2025, o gabinete do procurador-geral adjunto recebeu 16 itens relacionados a Epstein. Entre eles estavam materiais identificados como “Epstein Transparency Project - Classified Material” e dois CDs com conteúdo classificado.
Outro documento, um e-mail enviado no mesmo dia por um responsável pela unidade do FBI encarregada de analisar a classificação de informações, menciona três documentos que continuavam sob sigilo. Um deles foi descrito como um documento do FBI “classificado quando visto através” — expressão cujo significado não foi esclarecido. Trechos da mensagem que poderiam identificar os outros materiais e o destinatário foram ocultados.
Ainda não está claro qual era o conteúdo dos documentos classificados nem se os registros mencionados nas duas fontes se referem ao mesmo material.
Lacunas em registros financeiros e e-mails
O Departamento de Justiça informou ter reunido cerca de 6 milhões de páginas relacionadas ao caso e divulgado mais de 3 milhões após revisar o material para eliminar duplicações, proteger informações cobertas pelo sigilo advogado-cliente e excluir documentos considerados irrelevantes.
A CBS News analisou os códigos numéricos usados para organizar os arquivos e encontrou sequências com páginas aparentemente ausentes. Esses códigos, conhecidos como números Bates, são utilizados em processos judiciais para identificar individualmente documentos e páginas.
Em dezenas de milhares de casos, a numeração principal dos arquivos de Epstein avança de forma sequencial, enquanto códigos anteriores avançam dois ou mais números. Segundo a análise, isso sugere que páginas existentes em versões anteriores podem ter sido removidas antes da divulgação final.
Entre os exemplos estão registros financeiros de Epstein coletados durante investigações federais, incluindo documentos associados a bancos como JPMorgan e Deutsche Bank. Em uma sequência de aproximadamente 4.500 imagens de cheques, a análise identificou lacunas correspondentes a 66 imagens que deveriam estar presentes. Em alguns casos, falta apenas a frente ou o verso do cheque; em outros, ambos.
A ex-procuradora federal Barbara McQuade disse à CBS News que registros financeiros não estavam entre as categorias que poderiam ser retiradas com base nas regras aplicáveis à divulgação.
A análise também identificou lacunas em outra sequência de códigos relacionada a cerca de 995 mil páginas divulgadas, muitas delas compostas por e-mails. A comparação entre os sistemas de numeração apontou aproximadamente 1,2 milhão de páginas em lacunas nessa sequência. O cálculo, porém, não permite determinar sozinho quantas páginas correspondem a documentos distintos ou por que foram excluídas.
Os e-mails envolvem comunicações de Epstein com mulheres jovens que posteriormente o acusaram de abuso, associados comerciais, sua assistente Lesley Groff e Ghislaine Maxwell, condenada por seu envolvimento no esquema de exploração sexual.
Governo cita duplicações, mas dúvidas permanecem
Uma possível explicação para parte das lacunas está nas orientações dadas aos advogados do Departamento de Justiça durante a revisão. As instruções permitiam que mensagens anteriores de uma cadeia de e-mails fossem classificadas como duplicadas quando a mensagem mais recente já reunisse todo o histórico da conversa.
Esse procedimento poderia explicar a exclusão de algumas mensagens. No entanto, a CBS News observou que e-mails duplicados continuam presentes nos arquivos divulgados. Também existe a possibilidade de que erros durante o processamento tenham levado à remoção indevida de mensagens importantes.
O Departamento de Justiça não respondeu aos questionamentos recentes da emissora. Em declarações anteriores, afirmou ter divulgado todos os documentos exigidos pela lei e sustentou que os materiais restantes eram irrelevantes, protegidos por sigilo ou duplicados.
Ação judicial cobra explicações
A jornalista independente Katie Phang processou o Departamento de Justiça para exigir a divulgação de mais arquivos e explicações sobre as informações ocultadas ou removidas. Um juiz federal já tomou decisões favoráveis a alguns de seus pedidos, mas o governo recorreu. Phang também solicita a nomeação de um perito independente para examinar os documentos.
O próprio Departamento de Justiça reconheceu erros no processo. Entre eles, a retirada temporária de uma fotografia de Howard Lutnick, atual secretário de Comércio, durante uma visita à ilha de Epstein em 2012, imagem que depois foi restaurada. O episódio contradisse declarações anteriores de Lutnick sobre seus contatos com Epstein.
O governo também afirmou no ano passado que faltava um minuto nas gravações de segurança da prisão na noite em que Epstein morreu, mas posteriormente foi constatado que essa informação não era correta.
Para o advogado Stanley Brand, especialista em litígios e professor associado à Penn State Dickinson Law, falhas no processo prejudicaram a confiança pública no material divulgado. Sem uma explicação detalhada sobre as exclusões, permanece a dúvida sobre o que foi retirado e por quê.
Até o momento, as lacunas identificadas não comprovam, por si só, que documentos foram ocultados deliberadamente. Mas a falta de transparência sobre o processo de revisão mantém a pressão para que o governo esclareça o conteúdo retido e os critérios utilizados para excluí-lo.
Fonte: CBS

