A Flórida está prestes a encerrar quase meio século de vacinação obrigatória para crianças em idade escolar — uma mudança que médicos e pesquisadores alertam poder causar o retorno de doenças que já mataram e incapacitaram milhões de pessoas. O plano, anunciado pelo cirurgião-geral do estado, Joseph Ladapo, conta com o apoio do governador Ron DeSantis e faz parte de uma campanha que prega a “liberdade de escolha” dos pais sobre imunização infantil.
“Cada uma dessas exigências é errada e cheira a escravidão”, afirmou Ladapo durante um evento em Tallahassee diante de uma plateia contrária às vacinas. “Quem sou eu, ou qualquer governo, para dizer o que alguém deve colocar no próprio corpo?”, disse.
Médicos e especialistas, no entanto, alertam que a eliminação das exigências escolares reduzirá as taxas de vacinação e abrirá espaço para o ressurgimento de doenças como sarampo, hepatite, meningite, pneumonia e até o retorno da difteria e da poliomielite. Além de colocar em risco as crianças não vacinadas, a queda na imunização ameaça também bebês, idosos e pessoas com imunidade comprometida.
Apesar disso, a comunidade médica da Flórida tem se mantido em silêncio. Segundo o professor emérito Doug Barrett, ex-chefe de pediatria da Universidade da Flórida, profissionais de saúde foram orientados a não falar publicamente sobre o tema sem autorização. A mesma restrição se aplica a autoridades locais do Departamento de Saúde, que têm encaminhado questionamentos à sede do governo estadual.
Atualmente, apenas 89% das crianças da Flórida estão completamente vacinadas — uma das menores taxas do país. Em condados como Sarasota, o índice cai para 80%. Para conter o avanço do sarampo, o mínimo necessário seria 95%.
Estudos apontam que, com a queda das vacinas, o sarampo — considerado erradicado nos Estados Unidos em 2000 — pode voltar a se tornar uma doença comum, com centenas de milhares de casos e mortes anuais. Além disso, a ausência de imunização obrigatória pode facilitar o retorno de outras infecções graves, como coqueluche, hepatite B e meningite bacteriana.
Enquanto Ladapo afirma que as vacinas continuarão disponíveis “para quem quiser”, médicos alertam que a mensagem confusa desestimula os pais, principalmente os mais pobres, a levarem os filhos aos postos de saúde. O impacto pode se estender além das famílias, atingindo idosos, pacientes com câncer e o setor de turismo, um dos pilares da economia do estado.
Para especialistas, a decisão transforma a população da Flórida em alvo de um grande experimento. “Eles acham que nada vai acontecer. Talvez estejam certos”, disse John Sinnott, professor aposentado que contraiu poliomielite aos 7 anos. “Mas se estiverem errados, o preço será alto demais.”
Fonte: ABC

