Um homem de 25 anos, morador de South Palm Beach, na Flórida, recebeu oito anos de probation — equivalente à liberdade supervisionada — depois que conversas nas quais descrevia ameaças contra a ex-namorada foram identificadas pela OpenAI e encaminhadas ao FBI.
Darren Zhou se declarou culpado, no dia 13 de agosto, de três crimes: perseguição agravada, ameaças escritas de matar ou causar ferimentos e uso ilegal de um dispositivo de comunicação.
Segundo registros judiciais obtidos pelo jornal Palm Beach Post, Zhou começou a conversar com o ChatGPT em março de 2026, após o fim de um relacionamento de aproximadamente seis meses.
Inicialmente, ele falava sobre o término, o desejo de reatar e o ciúme que sentia de outros homens. Com o passar do tempo, porém, as mensagens evoluíram para ameaças repetidas e descrições de planos para sequestrar, agredir sexualmente e matar a jovem, que tinha 21 anos.
“Vou matá-la até o fim deste mês. Se eu não puder tê-la, ninguém poderá”, escreveu Zhou em uma das mensagens reproduzidas no relatório de prisão.
De acordo com os investigadores, o conteúdo não foi interpretado apenas como um desabafo emocional. As mensagens mencionavam lugares frequentados pela ex-namorada, a localização de suas aulas, o estacionamento de uma academia e diferentes situações nas quais Zhou poderia abordá-la.
Ele também escreveu que pretendia matar integrantes da família da jovem e depois tirar a própria vida.
COMO O FBI RECEBEU AS CONVERSAS
A OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, identificou as mensagens e encaminhou o caso ao FBI. Em maio, os agentes federais entregaram aproximadamente dois meses de registros das conversas ao Palm Beach County Sheriff’s Office.
Os documentos fornecidos aos investigadores continham as mensagens enviadas por Zhou ao ChatGPT, mas não as respostas apresentadas pelo sistema de inteligência artificial.
A OpenAI explica que utiliza sistemas automatizados para identificar conteúdos que podem violar suas políticas, incluindo ameaças e planejamento de violência. Quando uma conversa é sinalizada, profissionais treinados podem analisar o conteúdo e o comportamento do usuário dentro do contexto.
Segundo a empresa, quando uma conversa indica uma ameaça iminente e considerada confiável contra outras pessoas, as autoridades policiais podem ser notificadas. Portanto, não foi o chatbot que entrou em contato sozinho com o FBI; o alerta partiu da empresa depois da identificação e avaliação do risco.
EX-NAMORADA TAMBÉM APRESENTOU MENSAGENS
Depois de receber o alerta, policiais realizaram uma verificação de segurança na residência da jovem, moradora de Lake Worth Beach.
Ela contou que terminou o relacionamento por telefone porque considerava Zhou ciumento, controlador e imprevisível e tinha medo de como ele reagiria pessoalmente.
Após o término, segundo a investigação, Zhou continuou procurando a ex por ligações, redes sociais e números de telefone criados por diferentes aplicativos. A jovem bloqueou os contatos, guardou capturas de tela e entregou aos policiais mensagens consideradas ofensivas, sexuais e ameaçadoras.
Zhou foi preso em maio e permaneceu por dois dias na cadeia do Condado de Palm Beach, até pagar uma fiança de US$ 100 mil. Na época, ele trabalhava como analista do Goldman Sachs, mas foi posteriormente demitido.
OITO ANOS DE PROBATION
As três acusações poderiam resultar em até 25 anos de prisão. Entretanto, Zhou chegou a um acordo com a promotoria.
O juiz Scott Suskauer reteve a adjudicação formal da culpa — procedimento conhecido na Flórida como “withheld adjudication” — e determinou oito anos de probation, sem uma pena imediata de prisão.
Durante os primeiros dois anos, Zhou deverá usar um monitor eletrônico. Ele também terá que passar por uma avaliação de saúde mental, participar de um programa de intervenção destinado a autores de violência doméstica e permanecer longe de armas, drogas e bebidas alcoólicas.
Além disso, está proibido de entrar em contato com a ex-namorada. O descumprimento das condições poderá levá-lo novamente ao tribunal.
O juiz afirmou que aceitou o acordo porque a vítima concordou com os termos. A defesa também destacou que Zhou não tinha antecedentes criminais e alegou que, apesar das mensagens sobre armas, ele não possuía os armamentos mencionados nas conversas.
O caso chama atenção não apenas pela gravidade das ameaças, mas também pelo debate sobre os limites da privacidade em conversas com sistemas de inteligência artificial diante de um risco considerado real e iminente para outras pessoas.

