Passageiros de ônibus de Miami-Dade podem perder o serviço nas primeiras horas da manhã e ver cerca de uma dúzia de linhas eliminadas caso o orçamento proposto para 2027 seja aprovado. A medida avançou na primeira votação da Comissão do Condado de Miami-Dade na madrugada desta sexta-feira, após cerca de nove horas de debates e manifestações públicas.
A proposta de orçamento da prefeita Daniella Levine Cava, de US$ 14,3 bilhões, prevê o fim das partidas de ônibus antes das 6h em dezenas de rotas, além da eliminação de aproximadamente 12 linhas consideradas de baixa demanda. Uma segunda audiência pública e a votação final estão marcadas para 17 de setembro.
“O que o condado espera que esses passageiros façam?”, questionou Tala Habash, organizadora da Transit Alliance Miami, que defende a recuperação de cerca de US$ 1 milhão em recursos para manter o serviço antes das 6h.
Segundo Habash, muitos trabalhadores que utilizam os ônibus nesse horário sequer sabiam dos cortes previstos. Ela relatou ter conversado com uma mulher que voltava para casa depois de um turno noturno no Burger King. “Você deveria ter visto o rosto dela quando ouviu a notícia às 5h30 da manhã”, contou.
Prefeita defende aumento de 50 centavos
Embora Levine Cava tenha proposto os cortes no transporte, ela afirmou que preferiria que os comissários aprovassem um aumento de 50 centavos na tarifa dos ônibus, medida que tentou implementar no ano passado.
O reajuste não foi incluído na proposta orçamentária de 2027, mas a prefeita disse que o sistema de transporte precisa aumentar as tarifas pela primeira vez desde 2013.
“Precisamos aumentar a tarifa do transporte. Esse é realmente o ponto principal”, afirmou Levine Cava.
O comissário Oliver Gilbert, que representa a região de Miami Gardens, concordou que o sistema enfrenta custos maiores de combustível enquanto cobra praticamente o mesmo valor de uma década atrás.
Outra possibilidade seria reduzir o subsídio de cerca de US$ 5,5 milhões destinado ao MetroConnect, serviço que utiliza veículos privados para oferecer viagens de US$ 3,75 em áreas com pouca cobertura de ônibus. A proposta, apresentada pela comissária Raquel Regalado, foi rejeitada pela maioria da comissão.
Em um memorando enviado aos comissários nesta semana, Levine Cava apresentou alternativas para recuperar recursos para o transporte, incluindo acabar com o MetroConnect, elevar o imposto estadual sobre a gasolina de 3 para 5 centavos por galão e aumentar a tarifa dos ônibus de US$ 2,25 para US$ 2,75.
Juntas, as medidas poderiam gerar cerca de US$ 26 milhões por ano.
Condado enfrenta risco de déficit
O orçamento em discussão pode ser um dos últimos aprovados sob os atuais níveis de arrecadação. Eleição em novembro decidirá sobre a chamada Emenda 3, proposta constitucional que prevê uma redução do imposto sobre propriedades em toda a Flórida.
Miami-Dade estima que a medida provocaria uma perda de aproximadamente US$ 700 milhões em receita de impostos sobre propriedades quando estiver totalmente implementada, em 2029. Isso representaria cerca de 20% dos aproximadamente US$ 3,3 bilhões arrecadados atualmente.
A proposta de Levine Cava prevê algumas medidas de austeridade, como a eliminação de cerca de 450 cargos vagos, mas grande parte das decisões mais difíceis ficaria para depois da eleição.
O orçamento total aumenta 8%, enquanto a parcela financiada por impostos cresce 4%. As despesas com pessoal e saúde fazem os custos trabalhistas avançarem cerca de 5%.
O condado também enfrenta uma redução preocupante de suas reservas. O diretor de orçamento, Ray Baker, disse que Miami-Dade deveria ter aproximadamente US$ 500 milhões em seu fundo para emergências, mas dispõe de menos de US$ 90 milhões para situações como furacões.
“Estamos significativamente abaixo de onde deveríamos estar”, afirmou.
Xerife pede aumento de 12% nos impostos
A xerife de Miami-Dade, Rosie Cordero-Stutz, pediu aos comissários um aumento de 12% nos impostos sobre propriedades destinados ao financiamento de seu departamento.
Segundo ela, os recursos adicionais se traduziriam em mais policiais nas ruas e em maior capacidade para atender chamadas de emergência.
Levine Cava, que se opõe à Emenda 3, recomendou um aumento de 6% para o escritório do xerife — metade do percentual solicitado por Cordero-Stutz.
O plano da prefeita avançou na primeira votação, mas a decisão definitiva ainda será tomada na segunda etapa do processo.
Cortes atingem ônibus, lixo e programas sociais
Mais de 150 pessoas se inscreveram para falar durante a audiência pública, iniciada às 17h de quinta-feira. As manifestações duraram quase quatro horas, seguidas por outras cinco horas de discussões entre os comissários.
Além do transporte, outros pontos do orçamento foram alvo de críticas.
Entre eles estão a redução dos recursos destinados à preservação de áreas ambientais, como zonas úmidas e áreas de vegetação tropical. Organizações ambientais defendem pelo menos US$ 20 milhões para o programa de proteção de áreas ambientalmente ameaçadas.
Também houve pressão para manter US$ 2 milhões destinados ao programa de prevenção de despejos, que oferece assistência jurídica a moradores de baixa renda ameaçados de perder suas casas.
No Departamento de Resíduos Sólidos, a administração de Levine Cava propôs cortes depois que os comissários rejeitaram um aumento de US$ 14 na taxa anual de lixo, atualmente em US$ 702. A coleta de lixo e reciclagem não seria afetada, mas quatro das oito equipes responsáveis pela limpeza de ruas e retirada de móveis e eletrodomésticos abandonados seriam eliminadas.
“É minha única forma de chegar ao trabalho”
Para os defensores do transporte público, porém, os cortes nas linhas de ônibus são uma das maiores preocupações.
As cerca de 12 rotas que podem ser eliminadas no outono economizariam aproximadamente US$ 9 milhões aos cofres do condado. A administração classifica essas linhas como de baixa demanda, mas passageiros dizem que elas são essenciais para quem não tem outra opção de transporte.
Nicholas Ostermann, que trabalha como segurança, afirmou que a mudança pode colocar seu emprego em risco porque o ônibus é sua única alternativa acessível para chegar ao trabalho às 6h.
“Não é uma comodidade. É minha linha de vida”, disse.
A comissária Marleine Bastien também pediu que o condado encontre recursos para manter as linhas.
“Recursos limitados não significam responsabilidades limitadas. Precisamos encontrar uma maneira de manter essas rotas abertas e nossos trabalhadores em movimento”, afirmou.
Enquanto isso, a proposta de orçamento segue para uma segunda audiência, em 17 de setembro, quando os comissários deverão decidir quais cortes e aumentos permanecerão no plano final.
Fonte: Miami Herald

