Desde o fechamento do centro de detenção conhecido como Alligator Alcatraz, em junho, autoridades de emergência da Flórida comprometeram quase meio bilhão de dólares adicionais com empresas envolvidas na prisão, detenção e deportação de imigrantes. Com isso, os contratos financiados com verbas destinadas a emergências chegam a pelo menos US$ 1,4 bilhão, segundo dados financeiros atualizados discretamente pelo estado.
Quase nenhuma das alterações contratuais foi publicada no portal estadual de transparência de fornecedores, mostram os registros. O aumento ocorreu enquanto a Divisão de Gestão de Emergências da Flórida (FDEM) ampliou significativamente o valor total dos contratos nas últimas semanas.
Uma análise dos gastos estaduais realizada pelo Herald/Times aponta que o governo do governador Ron DeSantis já pagou cerca de US$ 630 milhões desses contratos. Outros US$ 812 milhões permanecem em valores a pagar. Os números não incluem compras pontuais de materiais, viagens ou alimentos.
Contratos ampliados após o fechamento do Alligator Alcatraz
Grande parte dos novos compromissos financeiros está relacionada a contratos já existentes com empresas que atuavam no centro de detenção improvisado construído nos Everglades, apelidado de Alligator Alcatraz.
Depois que DeSantis anunciou, em junho, os planos para fechar a instalação, seu governo acrescentou milhões de dólares aos contratos, em muitos casos sem licitação, firmados com empresas de gestão de emergências. A autorização para esse tipo de gasto foi obtida por meio do estado de emergência migratória que o governador declarou e vem renovando há quase três anos.
O aumento das despesas ocorre justamente enquanto a Assembleia Legislativa da Flórida intensifica a fiscalização sobre o fundo emergencial controlado pelo governo estadual.
Na última sessão legislativa, a maioria republicana aprovou novas regras para esses gastos, incluindo uma lei que exige relatórios trimestrais de despesas enviados às lideranças do Legislativo.
A Divisão de Gestão de Emergências, porém, ultrapassou o prazo para divulgar o relatório. Ao mesmo tempo, a agência solicitou mais US$ 250 milhões aos legisladores para ajudar a quitar despesas relacionadas à operação migratória, informou primeiro o Orlando Sentinel.
Segundo a pauta de uma reunião da Joint Legislative Budget Commission, marcada para a próxima sexta-feira, o dinheiro será solicitado para “pagar faturas pendentes relacionadas a desastres declarados”.
A divisão não respondeu às perguntas sobre o motivo do aumento dos contratos, por que a maior parte das alterações não foi registrada no portal público ou quando os fornecedores receberão os pagamentos restantes.
Quem mais ganhou com os contratos?
A empresa que recebeu o maior aumento nos valores recentemente comprometidos pelo estado foi a IRG Global Management.
A companhia tinha quatro contratos que somavam US$ 112 milhões, principalmente para a criação de uma espécie de “vila de funcionários” no complexo dos Everglades. Desde o fechamento do Alligator Alcatraz, porém, o valor total desses contratos quase triplicou e chegou a US$ 313 milhões.
Entre os gastos pontuais relacionados ao local, que já foi desmontado, estão US$ 40 mil em travesseiros, US$ 102 mil em equipamentos para academia e US$ 52 mil em água potável, segundo registros de pagamentos.
Outra empresa, a texana Garner Environmental Services, teve o valor de seu contrato quase dobrado nos últimos dois meses, passando de US$ 83 milhões para US$ 152 milhões.
Já a empresa de banheiros portáteis Doodie Calls está entre as maiores beneficiárias dos contratos de imigração do estado, com acordos que totalizam US$ 219 milhões.
As empresas não responderam aos pedidos de comentário.
US$ 1,4 bilhão em contratos migratórios
A IRG, a Garner e a Doodie Calls fazem parte de um grupo de 60 fornecedores que, desde junho de 2025, receberam a promessa de US$ 1,4 bilhão para participar da política de dissuasão migratória da Flórida, conhecida como Operation Vigilant Sentry, ou para ajudar na administração do Alligator Alcatraz e do Deportation Depot, outro centro de detenção operado pelo estado, no norte da Flórida.
O investimento faz parte da estratégia de DeSantis para colocar a Flórida na liderança nacional em medidas de fiscalização migratória e, ao mesmo tempo, trabalhar em conjunto com o presidente Donald Trump, que baseou parte de sua campanha na promessa de realizar deportações em massa.
Após a posse de Trump, DeSantis avançou rapidamente com novas medidas, incluindo leis que criaram penalidades migratórias estaduais, proibiram o acesso de estudantes sem status migratório legal à mensalidade universitária para residentes da Flórida e permitiram a abertura dos dois centros de detenção.
Fundo emergencial financia fiscalização migratória
O Emergency Preparedness and Response Fund foi criado em 2022, durante a pandemia de Covid-19, para permitir que o governo estadual respondesse rapidamente a emergências declaradas sem precisar de aprovação prévia do Legislativo.
Quando DeSantis declarou estado de emergência relacionado à imigração, em janeiro de 2023, o mecanismo passou a permitir que recursos emergenciais fossem usados para ações de fiscalização migratória. Desde então, a declaração foi renovada pelo menos 20 vezes.
No ano passado, dois terços dos gastos do fundo emergencial foram destinados à imigração.
Na quinta-feira, o fundo tinha apenas US$ 163 milhões restantes.
Fonte: Miami Herald

