O governo brasileiro voltou a condenar a ação armada dos Estados Unidos na Venezuela, assim como o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira dama Cilia Flores, no último sábado (3).
Durante a reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) nesta segunda-feira (5), o embaixador Sérgio França Danese disse que a paz na América do Sul está em risco.
Segundo o diplomata, intervenções armadas anteriores no continente resultaram em regimes autoritários, violações de direitos humanos, mortes, prisões políticas, tortura e desaparecimentos forçados.O recurso à força em nossa região evoca capítulos da história que acreditávamos ter deixado para trás e coloca em risco o esforço coletivo de preservar a região como uma zona de paz, declarou Danese.
Reafirmamos com plena determinação o compromisso com a paz e a não intervenção em nossa região.
Linha inaceitável
Para o Brasil, os Estados Unidos cruzaram uma linha inaceitável do ponto de vista do direito internacional. Danese afirmou que a ação norte-americana viola frontalmente normas das Nações Unidas.
A Carta da ONU estabelece como pilar da ordem internacional a proibição do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, salvo nas circunstâncias estritamente previstas. Essas normas não admitem que a exploração de recursos naturais ou econômicos justifique o uso da força ou a mudança ilegal de um governo, disse Danese.
O representante brasileiro afirmou que o futuro da Venezuela deve ser decidido exclusivamente pelo seu povo, por meio do diálogo e sem interferência externa, dentro do marco do direito internacional.
O mundo multipolar do século XXI, que promove a paz e a prosperidade, não deve ser confundido com esferas de influência. Não podemos aceitar o argumento de que os fins justificam os meios, disse Danese.
Colômbia e Cuba
Outros países sul-americanos adotaram argumentos semelhantes ao do Brasil, ao condenar as ações dos Estados Unidos na Venezuela no último final de semana. Entre eles Colômbia e Cuba, ameaçados recentemente pelo presidente Donald Trump como possíveis novos alvos de Washington.
A embaixadora colombiana Leonor Zalabata Torres disse que os EUA violam o direito internacional e a soberania venezuelana.Não existe justificativa alguma, em nenhuma circunstância, para o uso unilateral da força nem para cometer um ato de agressão, disse Torres.
A embaixadora alertou para os impactos humanitários e regionais da crise.
Ações unilaterais contrárias ao direito internacional colocam em risco a estabilidade regional e agravam as já complexas condições da população civil, com efeitos devastadores que transcenderão as fronteiras soberanas da Venezuela, disse Torres.
A Colômbia tem sido e continuará sendo um receptor solidário da população venezuelana, mas um fluxo migratório massivo exigiria um esforço significativo de recursos e capacidades, complementou.
O embaixador cubano Ernesto Soberón Guzmán acusou os Estados Unidos de terem como objetivo principal o controle da produção de petróleo venezuelano.O objetivo final dessa agressão não é a falsa narrativa de combate ao narcotráfico, mas o controle das terras e dos recursos naturais da Venezuela, como foi declarado aberta e descaradamente pelo presidente Trump e por seu secretário de Estado, disse Guzmán.
O diplomata também negou que o país atue de forma secreta no território venezuelano, como dito pelo governo estadunidense.Falar em uma transição segura e prudente significa, na visão dos Estados Unidos, impor um governo fantoche funcional a seus objetivos predatórios, particularmente o acesso irrestrito e a pilhagem dos recursos naturais que pertencem ao povo venezuelano, complementou.
Rejeitamos categoricamente as acusações de que Cuba mantém ativos de inteligência na Venezuela. Essas declarações não têm base factual e buscam desviar a atenção dos atos criminosos cometidos pelos Estados Unidos na região, disse Guzmán.
Argentina
Um dos poucos países a se manifestar em defesa da ação militar dos Estados Unidos na Venezuela foi a Argentina.O embaixador na ONU Francisco Fabián Tropepi classificou o sequestro de Nicolás Maduro como um passo decisivo no combate ao narcoterrorismo e uma oportunidade para a restauração da democracia no país.
A República Argentina confia que esses fatos representem um passo decisivo contra o narcoterrorismo que afeta a região e, ao mesmo tempo, abram uma etapa que permitirá ao povo venezuelano recuperar plenamente a democracia, o Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos, declarou o diplomata argentino.
Tropepi relembrou a concessão de asilo diplomático a seis líderes da oposição venezuelana em março de 2024 e a expulsão de diplomatas argentinos da Venezuela, depois que o governo de Buenos Aires reconheceu Edmundo González Urrutia como presidente eleito da Venezuela.
Apesar das pressões, a República Argentina manteve sua convicção inabalável de continuar denunciando a situação na Venezuela e de atuar em todos os fóruns internacionais disponíveis, disse Tropepi.

