Estado da União: Trump reforça linha dura na imigração e promete ampliar deportações
Presidente coloca segurança na fronteira como prioridade absoluta, critica políticas anteriores e sinaliza medidas mais rígidas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez na última terça-feira (24) o mais longo discurso do Estado da União da história — cerca de 1 hora e 48 minutos — em uma fala marcada por tom combativo, defesa enfática de sua política migratória, ameaças ao Irã e sucessivos confrontos com parlamentares democratas.
Realizado em meio à queda nos índices de aprovação do presidente e às vésperas das eleições de meio de mandato, em novembro, o pronunciamento serviu como vitrine política para reafirmar prioridades e mobilizar sua base eleitoral. Todas as cadeiras da Câmara e um terço do Senado estarão em disputa. Atualmente, ambas as Casas são controladas pelos republicanos, mas pesquisas indicam risco de perda de ao menos uma delas.
Embora tenha abordado economia e política externa, a imigração voltou a ocupar papel central — com impacto direto para milhões de imigrantes que vivem nos Estados Unidos, documentados ou não.
Linha dura contra imigração irregular
Trump afirmou ter implementado "a fronteira mais forte da história americana" e declarou que a imigração sem limites estaria "importando corrupção e criminalidade" para o país. Em diversos momentos, citou crimes cometidos por pessoas em situação irregular e apresentou familiares de vítimas que estavam presentes no plenário.
O presidente pediu ao Congresso a aprovação de novas leis para endurecer o sistema migratório. Entre elas:
- Uma proposta para proibir estados de emitirem carteiras de motorista — especialmente comerciais — para imigrantes em situação irregular. A medida foi apelidada de "Lei Dalilah", em referência a Delilah Coleman, jovem atropelada em 2024 por um caminhoneiro que, segundo Trump, estava no país ilegalmente.
- Um projeto para acabar com as chamadas "cidades-santuário", que limitam a cooperação com autoridades federais de imigração.
- Regras mais rígidas para impedir que pessoas sem comprovação de cidadania votem nas eleições.
- Restrições ao voto pelo correio, permitindo-o apenas em casos específicos, como doença ou serviço militar.
Trump também acusou adversários de terem permitido uma "invasão" na fronteira sul, ao mesmo tempo em que fez um aceno a estrangeiros que desejam entrar legalmente no país. "Sempre permitiremos a entrada legal de pessoas que amem nosso país e trabalhem duro para mantê-lo", afirmou.
Bate-boca e polarização
O discurso foi marcado por tensão explícita no plenário. Em determinado momento, Trump pediu que se levantassem os parlamentares que defendessem a prioridade para cidadãos americanos em vez de imigrantes ilegais. Democratas permaneceram sentados, e o presidente disse que eles deveriam "se envergonhar".
A deputada Ilhan Omar, democrata de Minnesota e de origem somali, protagonizou um bate-boca com o presidente. Outros parlamentares também gritaram acusações durante a fala. O clima refletiu o atual nível de polarização política no país — cenário que se intensifica em ano eleitoral.
Asilo, deportações e fiscalização
Embora não tenha detalhado novas medidas executivas, Trump deixou claro que pretende ampliar a repressão à imigração irregular, reforçando deportações e endurecendo critérios para permanência no país.
Para imigrantes indocumentados, o discurso sinaliza continuidade — e possível intensificação — de fiscalizações e operações. Organizações de defesa dos direitos dos imigrantes alertam que propostas como o fim das cidades-santuário podem aumentar a colaboração entre autoridades locais e federais, ampliando o alcance das ações do governo.
Além disso, propostas relacionadas a identificação obrigatória para votar e comprovação de cidadania reacendem o debate sobre o acesso de comunidades imigrantes a serviços e direitos civis.
Outros aspectos do discurso
No campo internacional, Trump ameaçou o Irã, acusando o regime de tentar desenvolver armas nucleares e mísseis capazes de atingir os Estados Unidos. "Nenhuma nação deve duvidar da determinação da América. Temos as Forças Armadas mais poderosas da Terra", declarou. "Isso se chama paz por meio da força."
Ele também mencionou a Venezuela e defendeu o que chamou de domínio americano no hemisfério ocidental.
O presidente celebrou o desempenho da economia, citando mercado financeiro em alta e defendendo suas tarifas comerciais — apesar de críticas e de uma decisão recente da Suprema Corte que invalidou parte dessas medidas. O presidente atribuiu dificuldades econômicas ao governo anterior e aos democratas.
O discurso ocorre em um momento delicado para a Casa Branca. Pesquisa da CNN conduzida pela SSRS aponta que 32% dos americanos acreditam que Trump tem priorizado os temas corretos, enquanto 68% consideram que ele não tem dado atenção suficiente aos principais problemas do país.
Ainda assim, o presidente não indicou qualquer recuo em suas políticas e adotou tom desafiador, comemorando o que chamou de "era de ouro da América".
O que significa para a comunidade imigrante
Para comunidades imigrantes, o discurso reforça um cenário de endurecimento institucional e maior polarização política. Propostas como o fim das cidades-santuário, restrições a documentos estaduais e maior exigência de comprovação de cidadania podem afetar diretamente a rotina de milhões de pessoas.
Embora muitas das medidas ainda precisem ser formalmente apresentadas e aprovadas pelo Congresso — onde enfrentam resistência no Senado — o pronunciamento deixa claro que a imigração continuará sendo peça central da estratégia política de Trump.
Em ano eleitoral, o tema tende a ganhar ainda mais protagonismo, com impacto direto sobre famílias, trabalhadores e comunidades inteiras espalhadas pelos Estados Unidos.
