Governo Trump tenta barrar retorno de conteúdos sobre clima, diversidade e direitos civis em parques históricos dos EUA

Administração recorre à Justiça para suspender decisão que determinou a restauração de materiais retirados de parques nacionais antes das celebrações dos 250 anos da independência americana

Por Lara Barth

A medida faz parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump de combate a organizações criminosas transnacionais

O governo do presidente Donald Trump recorreu à Justiça para tentar impedir a restauração de conteúdos sobre mudanças climáticas, direitos civis, escravidão e diversidade que foram removidos de parques nacionais e locais históricos dos Estados Unidos.

O Departamento do Interior e o Serviço Nacional de Parques (NPS) apresentaram um recurso à Corte de Apelações do 1º Circuito pedindo a suspensão de uma decisão judicial que determinou o retorno dos materiais até o dia 4 de julho, data que marca as celebrações dos 250 anos da independência americana.

A disputa começou após a juíza federal Angel Kelley decidir que a remoção dos conteúdos foi “arbitrária e caprichosa”. Segundo a magistrada, centenas de materiais educativos e informativos foram retirados ou selecionados para remoção desde maio de 2025, incluindo placas e exposições relacionadas às mudanças climáticas, direitos civis e comunidades historicamente marginalizadas.

Na decisão, Kelley afirmou que a administração Trump estaria promovendo uma versão limitada da história americana ao eliminar informações que não se alinham à narrativa defendida pelo governo.

“Sob o pretexto de promover a dignidade americana, esta administração busca contar apenas parte da história, removendo sinais, exposições e materiais interpretativos que não correspondem à sua narrativa preferida”, escreveu a juíza.

Ela também alertou que a medida cria um precedente perigoso de censura e “higienização” da história nacional.

Conteúdos removidos

Entre os materiais citados no processo estão placas que explicavam os impactos das mudanças climáticas em parques como Glacier National Park, em Montana, e Acadia National Park, no Maine.

Também foram removidas exposições sobre o tratamento dado a povos indígenas em áreas como o Grand Teton National Park, em Wyoming, e o Grand Canyon National Park, no Arizona.

A ação judicial menciona ainda a retirada de conteúdos relacionados à escravidão, abolicionismo, imigração, movimento trabalhista, sufrágio feminino e luta pelos direitos civis.

Um dos casos mais emblemáticos envolve a remoção de uma exposição sobre pessoas escravizadas na Casa do Presidente, localizada próxima ao Independence Hall, na Filadélfia. O memorial homenageia nove africanos escravizados que viveram no local durante a presidência de George Washington.

Após questionamentos judiciais, parte da exposição foi restaurada temporariamente, enquanto o caso segue sendo analisado pelos tribunais.

Governo defende mudanças

Em nota, o Departamento do Interior afirmou que a retirada dos materiais segue uma ordem executiva assinada por Trump em março de 2025, intitulada “Restaurando a Verdade e a Sanidade na História Americana”.

O documento orienta a remoção de conteúdos considerados baseados em “ideologias divisivas centradas em questões raciais” e busca impedir que instituições federais apresentem interpretações que retratem negativamente os princípios fundadores dos Estados Unidos.

“Consideramos inadequada a utilização de linguagem politicamente carregada que denigre os Pais Fundadores e apenas aprofunda divisões entre os americanos”, declarou um porta-voz do Departamento do Interior.

Já organizações de preservação histórica e ambiental argumentam que os parques nacionais devem apresentar uma visão completa da história americana, incluindo seus episódios mais controversos.

“Os parques pertencem ao povo americano, e qualquer forma de censura contraria os valores que esses locais representam. Histórias de triunfo e tragédia merecem ser contadas”, afirmou Alan Spears, diretor sênior da Associação para a Conservação dos Parques Nacionais.

Fonte: ABC