A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) como a "maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental" reforça a nova estratégia do governo do presidente Donald Trump para a segurança nas Américas. A definição foi publicada nesta quarta-feira (2) pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, durante o anúncio de sanções econômicas contra dois brasileiros e três empresas acusados de integrar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção.
Segundo o governo americano, o PCC expandiu suas operações para diversos países e representa uma ameaça crescente aos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.
"O PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e, nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos Estados Unidos, a facção representa uma ameaça criminal real e crescente", afirma o comunicado oficial.
As sanções marcam a primeira ofensiva econômica contra supostos integrantes da organização desde que, em junho, o governo Trump classificou o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
América Latina ganha prioridade na política externa
A referência ao "Hemisfério Ocidental" acompanha uma mudança mais ampla na política externa e de defesa dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, a administração Trump divulgou documentos estratégicos indicando que pretende concentrar esforços militares e diplomáticos na América Latina, com foco no combate ao narcotráfico, à imigração ilegal e ao avanço da influência chinesa na região.
Em janeiro, o governo apresentou uma nova Estratégia Nacional de Defesa, na qual afirma buscar manter a predominância militar e comercial "do Ártico à América do Sul".
O documento ressalta que os Estados Unidos pretendem fortalecer a cooperação com países do continente, mas também afirmam que poderão agir unilateralmente quando considerarem que seus interesses de segurança estejam ameaçados.
A estratégia adota o lema "paz por meio da força", amplamente utilizado por Trump desde o início de seu segundo mandato, e coloca o combate ao chamado "narcoterrorismo" entre as principais prioridades.
Combate aos cartéis e fortalecimento militar
Outro documento divulgado pela Casa Branca, em dezembro de 2024, definiu novas diretrizes para a política externa americana na região.
Entre as medidas previstas estão:
- ampliação da presença da Guarda Costeira e da Marinha dos EUA para combater o tráfico de drogas, de pessoas e a imigração irregular;
- reforço da segurança nas fronteiras e intensificação das ações contra cartéis de drogas, incluindo a possibilidade de uso de força letal em determinadas operações;
- ampliação do acesso militar dos Estados Unidos a pontos considerados estratégicos na América Latina.
O plano também menciona a intenção de reafirmar a Doutrina Monroe, política criada no século XIX que defende a predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e considera tentativas de influência externa na região uma ameaça aos interesses americanos.
Segundo a Casa Branca, a estratégia busca conter especialmente o avanço da China na América Latina.
PCC e Comando Vermelho na mira
Ao classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, o governo americano afirmou que as duas facções estão entre os grupos criminosos mais violentos do Brasil, responsáveis por ataques contra policiais, autoridades públicas e civis.
Na ocasião, o secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que as organizações ultrapassaram as fronteiras brasileiras e passaram a representar riscos também para outros países da região e para os próprios Estados Unidos.
"O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar o financiamento e os recursos de narcoterroristas", afirmou Rubio.
Governo brasileiro demonstrou preocupação
Antes da classificação das facções como organizações terroristas, o governo brasileiro tentou convencer Washington a não adotar a medida.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a decisão, defendeu a soberania nacional e afirmou que o Brasil não aceitaria ser "tratado como moleque".
Nos bastidores, integrantes do Palácio do Planalto avaliaram que a nova classificação poderia abrir espaço para ações unilaterais mais duras por parte dos Estados Unidos, como sanções econômicas e outras medidas relacionadas ao combate ao crime organizado.
Especialistas em segurança pública, no entanto, observam que a legislação brasileira já prevê punições severas para integrantes de organizações criminosas e argumentam que, no país, os instrumentos legais de combate às facções são, em muitos casos, mais rigorosos do que aqueles previstos na legislação específica sobre terrorismo.
Fonte: G1

