A antecipação da disputa pela sucessão presidencial no Brasil já produz efeitos concretos sobre o ambiente econômico. Embora o calendário eleitoral formal ainda não tenha sido acionado, o acirramento do embate político, a fragmentação de alianças e a indefinição sobre a condução futura da política econômica elevam o grau de incerteza um dos principais inimigos do investimento, da geração de empregos e do crescimento sustentável.
Historicamente, períodos de transição política mal definidos levam a economia a operar em modo defensivo. Empresários adiam planos de expansão, investidores passam a exigir maior prêmio de risco e o mercado financeiro responde com volatilidade, afetando câmbio, Bolsa de Valores e curva de juros. O Brasil, inserido em um cenário global já desafiador, não escapa a essa dinâmica.
Do ponto de vista do mercado de trabalho, os dados oficiais indicam aparente resiliência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego encerrou 2025 em patamar historicamente baixo, em torno de 5,6%. No entanto, uma análise mais aprofundada revela fragilidades relevantes. A criação líquida de empregos formais ao longo do ano foi modesta quando comparada a ciclos anteriores de recuperação econômica, e os dados mais recentes apontam desaceleração, com fechamento líquido de vagas em meses-chave, especialmente no último trimestre.
Além disso, cresce a preocupação com a qualidade do emprego gerado, marcada por alta rotatividade, informalidade persistente e menor renda média real, fatores que limitam o consumo e reduzem o efeito multiplicador da atividade econômica.
No setor produtivo, os sinais de enfraquecimento tornam-se mais evidentes. Segundo estimativas de entidades patronais do comércio, centenas de milhares de pequenos e micro negócios encerraram suas atividades ao longo de 2025, pressionados por custos elevados, carga tributária complexa, queda no consumo e restrição de crédito. O fechamento de empresas, sobretudo no varejo e em serviços, reflete não apenas dificuldades conjunturais, mas também a ausência de um ambiente previsível para planejamento de médio e longo prazo.
O mercado imobiliário comercial reforça esse diagnóstico. Dados do setor indicam que milhares de pontos comerciais permanecem fechados em grandes e médias cidades, muitos deles sem perspectiva concreta de reabertura. A elevada vacância em ruas comerciais e centros urbanos revela um processo de retração da atividade econômica local, com impacto direto sobre empregos, arrecadação municipal e dinamismo regional.
A restrição ao crédito é outro vetor central dessa desaceleração. Com taxas de juros ainda elevadas e critérios mais rígidos de concessão, empresários especialmente de pequeno e médio porte enfrentam baixa liquidez e dificuldade de acesso a financiamento para capital de giro e investimento. Instituições financeiras, diante do aumento do risco, adotam postura conservadora, encarecendo o crédito ou simplesmente limitando sua oferta.
Segundo dados da Serasa Experian, mais de 70 milhões de brasileiros encerraram 2025 com o nome negativado, o que representa uma parcela expressiva da população economicamente ativa. Esse nível elevado de inadimplência restringe o consumo das famílias, reduz a circulação de dinheiro na economia e aprofunda o ciclo de desaceleração, afetando diretamente o comércio e os serviços.
No campo fiscal, o desempenho das estatais adiciona mais um elemento de preocupação. Empresas públicas federais voltaram a registrar resultados negativos, revertendo expectativas de equilíbrio financeiro. O caso dos Correios é emblemático: após anos de dificuldades estruturais, a estatal voltou a operar no vermelho, exigindo aportes indiretos e ampliando pressões sobre as contas públicas. O déficit das estatais não financeiras reacende o debate sobre eficiência, governança e sustentabilidade fiscal e'm um momento em que o Estado já enfrenta limitações orçamentárias relevantes.
Esse conjunto de fatores desemprego estrutural disfarçado, fechamento de empresas, crédito restrito, inadimplência elevada e estatais deficitárias contribui para um ambiente de cautela generalizada. O mercado observa com preocupação a adoção de medidas de cunho populista, focadas em estímulos de curto prazo e aumento de gastos sem contrapartida estrutural clara. Tais ações, embora possam produzir efeitos políticos imediatos, não se traduzem necessariamente em crescimento econômico sustentável, podendo, ao contrário, agravar desequilíbrios fiscais e elevar expectativas inflacionárias.
No cenário internacional, o Brasil passa a competir por capital com outros mercados emergentes que oferecem maior estabilidade institucional, previsibilidade regulatória e clareza na condução da política econômica. Em um mundo marcado por juros elevados, tensões geopolíticas e desaceleração global, o ruído político doméstico pesa negativamente sobre a atratividade do país.
A experiência histórica demonstra que economias submetidas a longos períodos de incerteza política tendem a crescer menos, investir menos e gerar menos empregos. Por outro lado, quando há sinalização clara de compromisso com responsabilidade fiscal, segurança jurídica e diálogo institucional, os efeitos positivos se manifestam mesmo em ambientes externos adversos.
À medida que a disputa pela sucessão presidencial se intensifica, o desafio central será reduzir o grau de incerteza. Mais do que nomes ou slogans, o setor produtivo e os mercados observam propostas, equipes técnicas, capacidade de articulação política e compromisso com regras estáveis. O custo da indefinição é elevado e, como a história brasileira demonstra, acaba sendo pago por toda a sociedade.

