Após concentrar esforços em deportações e ações contra imigrantes em situação irregular, o governo do presidente Donald Trump avança agora sobre um novo front: a imigração legal. Em uma decisão que acendeu alertas na diplomacia internacional, em empresas multinacionais e entre especialistas em mobilidade global, os Estados Unidos anunciaram o congelamento da emissão de vistos de imigração para cidadãos de 75 países, entre eles o Brasil. A medida aprofunda a guinada restritiva da política migratória norte-americana e sinaliza que, no segundo mandato de Trump, até mesmo quem busca entrar no país pelas vias formais pode enfrentar obstáculos cada vez maiores.
O anúncio foi feito na quarta-feira (14) pelo Departamento de Estado dos EUA. Segundo o órgão, a emissão de novos vistos de imigração para cidadãos desses países ficará suspensa por tempo indeterminado, enquanto o governo reavalia os critérios utilizados para autorizar a entrada de estrangeiros que pretendem residir permanentemente no país. A justificativa oficial é evitar que novos imigrantes se tornem um "encargo público" para os cofres americanos.
Os vistos de imigração abrangem categorias destinadas a quem pretende viver de forma permanente nos Estados Unidos, como vistos baseados em emprego, relações familiares ou residência definitiva (o chamado green card). Não entram nessa lista os vistos temporários, como os de turismo, negócios ou trabalho por prazo determinado, que seguem sendo emitidos, ao menos por enquanto.
Fim da 'era da migração em massa'
A decisão não surgiu de forma isolada. Ela reforça diretrizes já previstas na nova estratégia militar e de política externa lançada pelo governo Trump em dezembro de 2025. O documento, considerado por diplomatas e analistas como um mapa das prioridades estratégicas dos Estados Unidos para os próximos anos, defende explicitamente o "fim da era da migração em massa" e a necessidade de reduzir ao máximo a presença de imigrantes no território norte-americano.
Segundo o texto, a política migratória passa a ser tratada como questão de segurança nacional, associando imigração à necessidade de combater terrorismo, tráfico humano, espionagem, drogas e o que o governo classifica como "migração descontrolada". A leitura feita por especialistas é que, ao longo de 2026, o foco das ações anti-imigração deixará de se concentrar apenas na fronteira e nos indocumentados, passando a atingir também os mecanismos formais de entrada no país.
"Ele basicamente vai desativar o sistema de imigração legal dos Estados Unidos", afirmou em dezembro a diretora de relações governamentais da Associação de Advogados de Imigração dos EUA, Shev Dalal-Dheini, ao comentar as novas diretrizes da Casa Branca.
De deportações em massa ao bloqueio da imigração legal
Durante o primeiro ano do novo mandato, a política migratória de Trump esteve centrada na promessa de expulsar imigrantes em situação irregular. Pouco depois de reassumir a presidência, o republicano determinou a intensificação das operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), colocando milhares de agentes nas ruas para deter estrangeiros sem documentação adequada.
Relatos de prisões sem mandado, detenções em residências e abordagens de pessoas que ainda estavam em processo de regularização passaram a se multiplicar. O discurso oficial era o de restaurar a "lei e a ordem" e cumprir a promessa de campanha de realizar a maior deportação da história do país.
Agora, a mudança de estratégia amplia o alcance da política anti-imigração. Ao congelar vistos de imigração, o governo passa a atingir também estrangeiros que aguardavam autorização para viver legalmente nos Estados Unidos, muitos deles já com vínculos familiares, contratos de trabalho ou processos avançados junto às autoridades migratórias.
Como funciona o congelamento de vistos
De acordo com o Departamento de Estado, o congelamento entrou em vigor a partir de 21 de janeiro e não há, até o momento, uma data definida para o seu encerramento. Segundo a rede Fox News, que teve acesso a autoridades do governo, a suspensão é apresentada como temporária e serviria para uma revisão ampla dos critérios de concessão de vistos.
"O Departamento de Estado suspenderá o processamento de vistos de imigrantes de 75 países cujos migrantes recebem benefícios sociais do povo americano em taxas inaceitáveis", afirmou o órgão em nota. "O congelamento permanecerá em vigor até que os Estados Unidos possam garantir que os novos imigrantes não irão extrair riqueza do povo americano."
Na prática, consulados continuarão recebendo documentos e realizando entrevistas já agendadas, mas não irão emitir os vistos ao final do processo. Centenas de pedidos devem ficar parados indefinidamente, afetando tanto imigrantes por razões familiares quanto profissionais altamente qualificados.
Impactos para brasileiros e empresas
A inclusão do Brasil na lista de países atingidos causou preocupação imediata entre empresas brasileiras e multinacionais com operações nos Estados Unidos. O congelamento afeta diretamente processos de green card baseados em emprego, como os vistos EB-2 e EB-3, bastante utilizados para a transferência de profissionais qualificados.
Com filas já longas para a obtenção de residência permanente, o bloqueio força empresas a buscar soluções alternativas. Departamentos de recursos humanos passaram a acelerar pedidos de vistos temporários, como o L-1, além de estudar a transferência de profissionais para outros países, como Canadá e México, ou a criação de hubs regionais e regimes de trabalho remoto.
Especialistas em imigração alertam também para o aumento de custos. Extensões adicionais de vistos temporários podem acrescentar entre US$ 6 mil e US$ 8 mil por funcionário ao longo de dois anos, além de gerar incertezas para trabalhadores e suas famílias.
Idade, peso e redes sociais na mira
O endurecimento das regras não se limita ao congelamento de vistos. Segundo a Fox News, o governo Trump avalia barrar a entrada de pessoas mais velhas ou com sobrepeso, sob o argumento de que elas representariam maior risco de gerar custos ao sistema de saúde e assistência social. Em novembro, a agência Associated Press já havia revelado discussões internas sobre restrições específicas a pessoas obesas.
No campo educacional, estudantes estrangeiros também passaram a enfrentar novas exigências. Desde junho do ano passado, candidatos a vistos de estudante precisam desbloquear seus perfis em redes sociais para análise por autoridades americanas. O objetivo declarado é identificar conteúdos considerados hostis aos Estados Unidos, ao governo, à cultura ou aos princípios fundadores do país.
Reações diplomáticas e incertezas
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil apresentou um protesto diplomático formal contra a decisão, mas evitou anunciar medidas de retaliação imediata. Nos bastidores, porém, advogados e diplomatas não descartam que o governo brasileiro retome discussões sobre taxas recíprocas de vistos caso o congelamento se prolongue.
Para analistas, o episódio evidencia a vulnerabilidade dos fluxos migratórios legais a mudanças abruptas na política americana. Mais do que uma medida administrativa, o congelamento de vistos é visto como um sinal claro de que, no governo Trump, a imigração — legal ou ilegal — deixou de ser apenas um tema econômico ou social e passou a ocupar um lugar central na estratégia de segurança e identidade nacional dos Estados Unidos.
Enquanto não há definição sobre o fim da suspensão, milhares de famílias e profissionais seguem em compasso de espera, diante de um sistema que, cada vez mais, parece se fechar até mesmo para quem tenta entrar pela porta da frente.

