Uma investigação da CBS News revelou que os casos de abuso sexual entre passageiros a bordo de aviões estão em alta nos Estados Unidos — e podem ser apenas parte de um problema maior, já que muitos episódios não chegam a ser oficialmente registrados.
Renee Solofra relatou ter sido vítima de agressão sexual durante um voo de Chicago para a Flórida, em setembro de 2023. Segundo ela, o homem sentado ao seu lado estava visivelmente embriagado, com forte cheiro de álcool, e continuou bebendo antes de tocá-la sem consentimento. “Ele já tinha segurado meu pescoço, minha mão, pegado meu celular. Quando estávamos prestes a pousar, cruzei os braços e fechei os olhos, esperando que acabasse logo. Foi quando ele agarrou meu seio”, contou.
Solofra denunciou o caso ao desembarcar e decidiu processar o agressor, Daniel McAdams, que se declarou culpado por agressão. Ela afirma que o episódio afetou profundamente sua vida pessoal e profissional. “Eu tinha medo de viajar. Precisei fazer terapia, algo que nunca tinha feito antes. Isso virou meu mundo de cabeça para baixo”, disse.
De acordo com dados obtidos pela CBS News, o FBI investigou mais de 170 casos semelhantes em 2024, contra cerca de 130 no ano anterior. Embora o número represente uma fração dos milhões de passageiros que voam anualmente, o aumento é considerado significativo. Autoridades admitem que os dados podem estar subestimados, já que parte das ocorrências é tratada por polícias locais de aeroportos, que não divulgam estatísticas públicas.
A análise da emissora indica que muitos casos ocorrem em voos de longa distância ou internacionais, geralmente à noite e frequentemente envolvendo passageiros que consumiram álcool.
Sara Nelson, presidente internacional da Associação de Comissários de Bordo, afirma que mudanças nas condições de voo podem aumentar a vulnerabilidade dos passageiros. Segundo ela, no passado havia mais assentos vazios, maior espaçamento entre as fileiras e mais comissários a bordo, o que facilitava a supervisão da cabine. Hoje, apesar de haver mais passageiros, a proximidade entre os assentos e a falta de campo de visão dificultam que testemunhas percebam o que está acontecendo.
O FBI e a indústria aérea afirmam que tratam as denúncias com seriedade. No entanto, advogados e vítimas apontam falhas no sistema de notificação. A advogada Daisy Ayllón, que representa cerca de uma dúzia de mulheres que relatam abusos em voos, afirma que não existe atualmente um mecanismo que obrigue as companhias aéreas a reportar todos os casos às autoridades federais.
“Os números do FBI refletem apenas as vítimas que decidiram denunciar. Sabemos que há mais casos, porque as companhias recebem essas reclamações diretamente, mas não são obrigadas a compartilhar esses dados”, afirmou.
Solofra entrou com uma ação judicial contra a American Airlines. Em nota, a empresa declarou que a segurança de clientes e funcionários é prioridade, mas não comentou o caso por se tratar de processo em andamento.
A vítima agora incentiva outros passageiros a denunciarem agressões imediatamente e cobra mudanças no sistema. “O silêncio só protege o agressor. Precisamos de reformas — e não vamos parar até que elas aconteçam”, afirmou.
Fonte: CBS

