Nem sempre é fácil saber quando um animal sente dor. A dor - assim como a demonstração da dor - varia muito de acordo com o paciente, e cada um reage de uma maneira diferente. Em seres humanos, os médicos utilizam uma escala de 0 a 10, que mede a intensidade da dor. O paciente diz ao médico se a dor que ele sente é suave, moderada ou severa utilizando a escala. Mas no caso de bebês ou de pessoas que tem algum tipo de deficiência de comunicação, o jeito é medir a dor de acordo com o comportamento apresentado pelo paciente. E é assim que nós, veterinários, interpretamos a dor animal: pelo comportamento.
Mas em medicina veterinária nem sempre se deu tanta importância ao sofrimento animal. Dizia-se que após uma cirurgia, era bom que o animal sentisse dor, pois assim ele não se movia muito e ficava de repouso. Hoje, esse método é considerado crueldade aos animais e medidas são tomadas para minimizar a dor; a restrição do excesso de atividade física no período pós-operatório é de inteira responsabilidade do veterinário e do dono.
O famoso Dr. Pol, o médico veterinário que é a estrela de um show da TV americana “Nat Geo Wild”, é criticado por muitos membros da comunidade veterinária por negligenciar o controle da dor em seus pacientes.
Felizmente, para os animais, na medicina veterinária moderna, o controle da dor é parte integrante do tratamento e recuperação animal.
Mas a dor é uma ocorrência subjetiva, e os animais tem a tendência instintiva de
escondê-la, pois os predadores em potencial não querem demonstrá-la sob o risco de se tornarem presas. Fica então a critério do medico veterinário avaliar o comportamento animal e tomar as medidas necessárias para combater a dor.
O controle da dor é fundamental não somente para o bem-estar do animal, mas também para proporcionar a cura. Animais doentes ou acidentados, assim como animais em período pós-operatório, custam mais a se recuperar quando sentem dor. A causa deste atraso na recuperação são as substâncias nocivas que são liberadas na corrente sanguínea do animal. Umas dessas substâncias é o cortisol, que prejudica a cicatrizacão de feridas e suprime o sistema imune. Portanto, se a dor permanecer, efeitos negativos nos sistemas cardiovascular, respiratório, gastrointestinal, neuroendocrino e imune ocorrem.
Existem situações em que o sofrimento animal é inevitável, mas pode ser atenuado. Um exemplo é o cão que sofre de displasia coxo-femoral, uma doença degenerativa da articulação da pélvis com a cabeça do fêmur. A doença é muito comum e o tratamento mais efetivo é o tratamento cirúrgico. Como a cirurgia é relativamente cara, muitas vezes o animal tem que conviver com a dor e a inevitável deterioração de seu estado. É nesse momento que é importante consultar o veterinário, pois com a sua experiência clínica, ele interpreta os sinais, às vezes sutis, de dor e pode prescrever medicamentos e/ou terapias alternativas para proporcionar conforto.
Muitos animais de estimação convivem também com dor nos dentes. No dia a dia de uma clínica veterinária, é comum se diagnosticar abscessos dentais. Essa condição produz uma dor muito intensa, além do famoso mau hálito. Mas, se engana quem pensa que, porque o animal continua comendo normalmente (até a ração seca), ele não sente dor. O instinto de sobrevivência faz com que o animal continue comendo. Ele não recusa a comida a não ser que a dor seja absolutamente insuportável. Às vezes, o dono pode notar que o animal põe a comida na boca, mas em seguida a deixa cair. Ou, em alguns casos, ele come, mas vira a cabeça para o lado, onde ele pode mastigar com mais conforto.
Períodos pós-operatórios são quase sempre dolorosos. Quem já passou por algum procedimento cirúrgico sabe. Portanto, a melhor medida é administrar a medicação de dor em 3 estágios:
No pré-operatório - para prevenir a dor quando o animal acordar da anestesia. Os medicamentos administrados antes da operação também ajudam o veterinário a usar menos anestesia durante a cirurgia.
Durante a operação - se a cirurgia for de longa duração, também evita dor no período pós-operatório.
No pós-operatório - quando a medicação administrada antes e durante a cirurgia já está começando a perder o efeito. Além disso, quando o paciente tem alta, medicamentos para controle de dor devem ser administrados, ajudando assim a rápida recuperação do paciente.
Depois da alta, os medicamentos mais usados em casa para controle de dor em pacientes veterinários são os opioides e os anti-inflamatórios não esteroides. Existem várias formas de administração, sendo a administração por via oral a mais simples e mais usada. Mas também está ganhando popularidade os chamados “patches”, um adesivo impregnado com analgésico que é aplicado diretamente na pele do animal; dessa forma a droga é absorvida e entra na corrente sanguínea. E, é claro, também se pode mandar para casa medicamentos injetáveis, se o dono do animal tiver experiência em administração de injeções.
Outros métodos de controle de dor são a acupuntura (terapia com agullhas), a fisioterapia, massagens, o tratamento com laser, e até mesmo a terapia com células tronco. Controlar a dor é também um problema ético. Os profissionais veterinários têm o dever de educar os donos e ajudá-los a reconhecer os sinais da dor no seu animal. Alguns donos argumentam que o seu animal já é muito velho e que é “normal” que sinta dor. É o nosso dever evitar o sofrimento desnecessário desses animais idosos, afinal, jovem ou velho, ninguém merece sentir dor.

