Migrantes que cruzam a fronteira entre o México e os Estados Unidos geralmente se entregam à Patrulha da Fronteira, dando início a um processo de pedido de permanência legal em solo americano. A maioria pede asilo nos EUA por ameaça de morte no país de origem, que é diversa. Eles se misturam entre migrantes de países tão diversos como China, Uzbequistão, Camarões, Brasil e Turquia, por exemplo.
Eles são então colocados no sistema da agência, que faz o cadastro e os libera. No entanto, na fronteira México-Califórnia, muitos são deixados em acampamentos, considerados campos não oficiais, no deserto enquanto aguardam vaga em abrigo do sistema de imigração dos EUA.
De acordo com a BBC, eles passam a noite a céu aberto e com um vento que corta este trecho do deserto californiano, no meio do caminho entre San Diego e Calexico, a quilômetros da cidade mais próxima – Jacumba – e de qualquer estrada asfaltada. Ativistas e moradores locais dizem que é um desastre humanitário e que ninguém está ajudando. Não há nenhum tipo de abrigo contra o vento forte ou o frio do deserto.
Uma média de 500 migrantes fazem isso todos os dias desde maio, à espera de serem recolhidos para que os seus casos possam ser julgados. Agentes uniformizados fazem com que os migrantes formem longas filas e algumas dezenas entram em vans, mas muitos ficam para trás, à espera da sua vez.
Essa diversidade de origem também é evidente nos outros dois acampamentos ao ar livre localizados no deserto ao redor de Jacumba e chamados de Vale da Lua e Campo 177.
Não se trata de um centro de detenção oficial, mas sim de uma espécie de sala de espera informal de um sistema saturado, segundo explicações da própria Alfândega e Proteção de Fronteiras. Mas sair seria considerado um crime federal.
Camp Willow
O Camp Willow é um dos três assentamentos na região. Ainda que, para ser um acampamento, teria que haver uma infraestrutura mínima, mas a única coisa que se encontra entre os arbustos, os terrenos áridos e as rochas metamórficas típicas desta paisagem são dois banheiros químicos fornecidos pelas autoridades americanas e que são esvaziados uma vez por semana.
Também há meia dúzia de tendas cor-de-rosa doadas por organizações que defendem os direitos dos migrantes e enviam também alimentos e alguns voluntários, como a Border Kindness.
Numa conversa informal, um agente da Patrulha de Fronteira afirma que o objetivo é transportá-los o mais rapidamente possível do terreno para as instalações de processamento onde os casos serão examinados para que os mais vulneráveis sejam priorizados.
Números recordes
Desde o início do ano, mais de 2 milhões de migrantes foram detidos na fronteira entre o México e os Estados Unidos, um número recorde, segundo dados do Gabinete de Alfândega e Proteção de Fronteiras.
O Título 42, regra que desde março de 2020 permitia às autoridades americanas expulsar rapidamente estrangeiros que tentassem entrar irregularmente no país, expirou em maio de 2023.
Antes do fim da política, a administração Biden criou mais vias legais de entrada para os migrantes, ao mesmo tempo que endureceu as punições para a travessia ilegal.
Com tudo isso, em junho o número de apreensões na fronteira caiu mais de 40%.
Mas esta tendência não continuou e voltou a aumentar de forma constante, ao ponto de terem sido realizadas 300 mil detenções só em outubro.
"O Departamento de Segurança Interna continua cumprindo as leis de imigração dos EUA, expandindo as vias legais e ao mesmo tempo reforçando as consequências para aqueles que atravessam a nossa fronteira ilegalmente", disse um porta-voz da agência, quando questionado sobre a razão pela qual centenas de pessoas são mantidas durante horas, até mesmo dias, em campos como Willow.
Em comunicado enviado à BBC, lembrou que quem entrou irregularmente está sujeito à deportação e será proibido de entrar nos EUA por pelo menos cinco anos, além de enfrentar possíveis processos criminais caso tente novamente sem autorização, conforme a norma que está agora em vigor, o Título 8.

